quarta-feira, 30 de junho de 2010

[sic]"On n'est qu'on-même hypocrites!"

Obrigado ao Marco Dias Rodrigues (Aprender, criticando) por me ter chamado a atenção para este vídeo! Um discurso brilhante por Cohn-Bendit e possivelmente uma das poucas vozes independentes que ainda clamam por justiça nas instituições políticas de hoje em dia. Uma análise extremamente interessante e que trás à luz da opinião pública uma perspectiva muito bem apanhada das relações económicas Europa-Grécia e a relação com o conflito cipriota. Vale a pena perder 5min a ouvir.

Finalmente um uso decente para as vuvuzelas!

Vejam os últimos minutos em que estes dois malucos fazem uma performance incrível do Bolero de Ravel. São sem dúvida alguma génios, que tornam estes instrumentos abjectos em algo quase tolerável... Será que conseguiam fazer o mesmo com algumas pessoas? Conhecia alguns sérios candidatos a este tratamento...

terça-feira, 29 de junho de 2010

Ele há coisas...

Há coisas que são no mínimo caricatas. Daquelas que contadas ninguém acredita. É que aposto que não é preciso ser génio nenhum para se dar a volta à situação de uma forma coerente. E, uma vez mais, tenham bom-senso gente! Dá vontade de dizer: isto só neste país. Leiam a petição aqui incluída e já agora assinem que a causa é meritória...

http://www.peticao.com.pt/encerramento-bnp
Petição Contra o Encerramento da BNP

No passado dia 8 de Junho de 2010 a direcção da Biblioteca Nacional de Portugal [BNP] anunciou que os serviços de Leitura Geral da Biblioteca encerrarão durante dez meses (de 15-11-2010 a 01-09-2011) e os Reservados durante cinco meses (01-04-2011 a 01-09-2011). Como cidadãos e utilizadores da BNP, embora conscientes das inequívocas vantagens inerentes à ampliação do edifício de depósitos da biblioteca, consideramos o planeamento dos trabalhos estipulado inaceitável e solicitamos que seja repensado.

O encerramento durante quase um ano de uma instituição que detém colecções sem alternativas (Secção de Reservados, espólios do Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, Secção de Periódicos por exemplo) é incompatível com o prosseguimento da actividade científica de largas dezenas de estudantes e investigadores que necessitam desse material.



A indisponibilização dos acervos da BNP comprometerá a viabilização de projectos em curso, muitos deles com financiamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior ou de outras instituições, e porá em causa o cumprimento de calendários e compromissos académicos estabelecidos. O encerramento de uma instituição como a Biblioteca Nacional teria, no mínimo, que ser publicamente comunicado com um ano de antecedência para que as várias partes envolvidas (universidades, instituições de financiamento, estudantes, investigadores) pudessem planear o seu trabalho em função desses dados. É inadmissível que uma determinação deste género seja comunicada apenas com cinco meses de antecedência.

Por outro lado, acreditamos que seja possível levar a cabo os trabalhos de transferência dos fundos de forma faseada, de modo a evitar um encerramento integral tão longo. Independentemente de existirem outras bibliotecas com Depósito Legal, é do conhecimento geral que para uma parte substancial do acervo bibliográfico e documental da BNP não existem alternativas nem em Lisboa nem em nenhuma outra biblioteca ou arquivo do país. Pelo que é absolutamente incompreensível que se proponha que este acervo único permaneça inacessível durante 10 meses.

Solicitamos pois que se proceda a uma reconsideração do plano de transferência, no sentido de:
1) se atrasar o encerramento da BNP para depois de Junho de 2011, para dar um mínimo de um ano de antecedência ao anúncio
2) fasear os trabalhos de modo a reduzir o tempo de encerramento integral dos referidos núcleos da BNP.

Lisboa, 22 de Junho de 2010

Chegou de Expresso porque ainda não há TGV

Chegou ao Expresso (que pessoalmente considero a publicação mais fidedigna da imprensa nacional) o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Numa reviravolta desconcertante, se não inesperada, o semanário converte-se à nova seita linguística endereçada pelos senhores de S.Bento. Não entendo a leveza de espírito com que o jornal publicou a sua decisão, nem como aceita tão cordialmente denominar os espectadores de um qualquer evento com um vocábulo que mais se aplicaria a um bandarilheiro de tourada: espetadores.

Embora entenda a necessidade de evolução de uma língua e a situação dos hífenes e outros detalhes que tais não me façam a menor confusão, não consigo ficar indiferente ao assassínio de palavras como acção, recepção, vector ou baptismo. É que talvez quem de competência se não tenha apercebido, mas embora os cês e pês destas palavras sejam mudos, não são inúteis. Servem para que, quando lemos estas palavras, abramos vogais que de outra forma se deveriam ler fechadas. Assim, lemos "áção" "recéção", "vétor" e "bátismo". Sem as consoantes mudas, passamos a fechar todas essas vogais. Boa sorte para quem quiser falar assim, eu não consigo nem quero.

Embora me escude no facto de a minha rejeição do Acordo Ortográfico se fundamentar em razões linguísticas (fonéticas, etimológicas...), interrogo-me se não serei simplesmente um conservador. Mas não tenho nada contra neologismos ou novas relações semânticas ou novas construções sintácticas, mas isto de mexerem na ortografia desta maneira irresponsável não me cai bem. Esta má disposição, à falta de alternativa que se me afigure, imputo-a ao bom senso.

Claro está que não se poderia esperar que os frequentadores dos Paços de S.Bento padecessem desta minha má-disposição. A lógica, o nexo e a coerência nunca figuraram na lista das suas preocupações; seria ingénuo esperá-lo agora. Esfaqueiam esse pobre coitado do bom-senso sempre que têm oportunidade, qual bandarilheiros, verdadeiros espetadores (sem "c"). Das últimas facadas a mais profunda deve ser aquela da construção de um comboio de alta velocidade entre duas capitais que não parte de uma nem chega à outra. Mas jubilemos, que isso tornou a nossa ligação de alta velocidade à Europa (como se não fossemos já parte desse continente) um passo mais próxima.

E nesses tempos áureos de prosperidade que nos trará o TGV, estas ideias peregrinas como a do Acordo já não precisarão de nos chegar de Expresso, que isso será coisa do passado.

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Dissonâncias d'Aquém e d'Além

Afigurou-se-me ser hoje dia tão bom como outro qualquer para reciclar este velho amigo. O Dissonâncias (I) foi companheiro fugaz de um período marcante da minha existência, os 17 anos. Limpei-lhe o pó, pus óleo nas dobradiças, lavei-lhe a fronte e vesti-o de novas roupagens. Tracei a tinta electrónica um novo nome que sendo talvez mais pomposo (o que não é necessariamente mau), me é também mais querido. D'Aquém o meu pathos, d'Além o dos outros. D'Este e d'Aquele Reinos vos contarei histórias do que lhes sucedeu a partir do dia de 29 de Junho de 2010.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

...

Apoderou-se de mim uma enorme vontade de escrever... Não sei o que faço... Limito-me a saborear o prazer de premir as teclas do teclado enquanto vejo as letras materializarem-se à minha frente construindo um modelo da estupidez do meu pensamento presente.

(Foco-me na estupidez do que escrevo, qual naufrágo desesperado agarrado estupidamente a um pequeno galho, numa tentativa de não me afundar na estupidez que me envolve. Se me afogar em alguma, ao menos é nesta, que é minha.)

Não sei que escreva; não tenho nada que escrever. Pareço louco, mas tenho direito a sê-lo. Mais não seja pela estupidez que me envolve. Ou por aquela em que me afogo, que já não sei se é a minha ou a dos outros. É tudo a mesma coisa e ao mesmo tempo é tão diferente.

Não disse nada. Mas se nada tinha que dizer, tudo está bem. Apenas queria escrever. Já escrevi. Vou embora.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

...de manhã...


Não, não sou uma aberração... Como a esmagadora maioria das pessoas normais, evito qualquer tipo de actividade cerebral pouco depois de acordar. Mas toda a regra tem excepção. E durante a sonolenta viagem que fazia a caminho da escola, lá semi-abri os olhos para que eles se enchessem duma inesperada beleza conseguida à custa do nevoeiro matinal, que mantinha o castelo, qual ilha, suspenso no alto sobre um mar de branco etéreo. E aquele sol tímido da manhã emprestava brilho ao conjunto e todas as gotas de água, suspensas no ar como que por magia, resplandeciam. E no horizonte distante, em contraste brutal e abrupto, reinavam as pacíficas trevas da noite onde o burburinho luminoso do despertar não chegara ainda. Voltei a fechar os olhos pelos escassos minutos que me restavam de viagem. Assim embalado pelo suave balanço do carro e envolvido pela aragem amena da sofagem, também algo dentro de mim exclamou, ao som delicioso do saxofone e da querida voz velha do roufenho Armstrong: "What a wonderful world!"

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

On being human: Truth

The pure and simple truth is rarely pure and never simple.

Oscar Wilde

Maybe that’s why we lie to each other. Like trolls from the fantastic stories of my childhood, who would kill you just to simplify things, we remorselessly kill truth in a vain attempt to simplify our lives. You lie to me. You’d rather tell me you were stuck in traffic than the pure and simple truth: you just bumped into that old friend of yours. Because to me that wouldn’t be as straightforward as that: you didn’t just bump into him. He was looking for you. Yes, I know he was your childhood sweetheart. Yes, I’d be jealous. You Know me. That, at least, is a pure truth. So you lie. You simplify. You never asked me if I wanted that, though.

Someone saw you speaking, and perhaps something else. Someone told me someone saw. It’s always like that. Then you just deny. To assume your mistakes was never easy to you. It wouldn’t seam a viable option to your pride. Well, honestly speaking, nor would it seam to mine. We argue. Inevitable. We hurt each other. Predictable. We split up. Foreseeable.

The truth would have been everything but simple to tell. I would never expect you to actually tell me the pure truth (I’ve never met someone capable of that). We both know all that. Even so, I demanded it pure and simple. Just the way you could never have done it. You understood my position, though, You would have done exactly the same thing. We both know that. Despite lying to you almost everyday (about your new haircut, your cooking, your lovely cousin, or an unimportant flirt at work), I still find myself in position to demand truth. And, to my amazement, you still find me in that position too.

Now we are apart. The exact way we swore countless times we would never be. Now I cry shamelessly. The exact way I swore myself countless times I would never do. Now you hang out with other guys just for the sake of forgetting. The exact way you swore yourself countless times you would never do. And nowadays, we live lying to ourselves pretending to be someone we are not. That is the pure and simple truth: lying is rarely pure and never simple.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

LONDRES – Tomo I: “À Descoberta”

Tenho medo de fazer isto. Mas já era altura de me libertar deste fardo. Afinal já passou o quê (?), um mês e tal? É, já é tempo de pôr por escrito aquilo que ando a adiar à muito. Tenho de agradecer à Filipa, à minha mais que querida companheira de viagem, por ter tomado esta iniciativa no seu blog. Eu sigo-lhe o exemplo. Afinal, os amigos servem para isto, para partilhar o bom e o mau que nos acontece na vida…E como poderia eu deixar de partilhar convosco a, sob todos os aspectos, melhor experiência da minha vida?

Foram apenas duas semanas dirão muitos. Eu respondo que vivi e aprendi mais nessas duas semanas do que muitos em todo o tempo que por cá andaram. O objectivo, pelo menos o oficial, era aprofundar o meu conhecimento de inglês. No fim, saí de lá a falar inglês ainda melhor, com um francês já aceitável, com mais noções de italiano e a saber dizer alguma coisa de alemão, pelo menos o mais necessário, como por exemplo: Du hast shön blond haar und fantastisch blau augen! Acreditem: serve para qualquer rapariga alemã! ;) Mas muito mais do que as matérias académicas foram as pessoas, as situações, as descobertas, a interacção. Foram 15 dias de descoberta de mim mesmo numa situação em que nunca antes me encontrara (mas não me importarei de voltar a encontrar): uma autonomia e uma independência fantásticas. E não pensem que foi só a falta de pais. Foi o tudo ser desconhecido: a cama, o lugar, as pessoas, as escola, os colegas, os professores… Dá-te uma liberdade quase completa. Afinal ninguém te conhece mesmo! Qual é o problema de declamar “Os Lusíadas” em alto e bom som no meio de Oxford Street? E Piccadilly Circus é um lugar tão bom como outro qualquer para aprender a dançar, desde a valsa ao cha cha cha! Quanto ao cantar, num coro cheio de harmonia e vozes melodiosas, todo os géneros musicais, desde Muse a Toni Carreira, no metro, bem, tirando uns olhares reprovadores de perto de 99% dos transeuntes, não houve nada de mais! Foram 15 dias de descoberta de pessoas completamente novas, mas do mais fascinante! Todas à sua maneira tinham algo de diferente para contar, mostrar ou ensinar. E não há maneira melhor de aprender do que entre pessoal jovem a rir às gargalhadas do pavão, dos torneios de ping-pong, das calinadas da Chio, dos estereótipos culturais ou da falta de habilidade de alguém, muito provavelmente eu, para comer com pauzinhos.

Foram 15 dias de aventura diária, de viagens de autocarro sem destino conhecido, de encontros menos recomendáveis às 3 da manhã, de quilómetros e quilómetros percorridos no meio daquela atmosfera citadina, atarefada, estimulante. 15 dias que souberam a pouco, mas pelos quais agradeço todos os dias.

Como respondia a todos aqueles que vinham ter comigo e perguntavam: “Então e Londres, como foi?”; é impossível sintetizar uma tal experiência em meia dúzia de palavras, e daí o “Tomo I” no título. A medida que me for recordando das experiências lá vividas vou-as publicando aqui neste meu canto dissonante. Não na esperança de que vocês as leiam todas, mas numa necessidade de libertação. Foi bom, foi óptimo, foi do melhor que já me aconteceu. Mas passou. E agora coisas há que requerem atenção e preciso de fechar este livro para abrir o próximo. Espero retoma-lo no próximo Verão (a França espera-nos Filipa!). Afinal, as histórias só têm um ponto final definitivo quando lho querem por.
E esta?…bem…esta terá de viver sem ele!

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Ocasos

Algarve, Via do Infante.

A direcção era Oeste.

O relógio marcava 9 da tarde (sim, da tarde, pois naqueles enormes dias solarengos de Julho podemos dar-nos a tais extravagâncias).

O Sol aproximava-se do término da sua jornada diária e as suas línguas de fogo e luz lambiam com indescritível provocação os cumes das serras do interior algarvio. Olhei-o de frente, sim, daquela maneira que não se deve porque faz mal aos olhos. Fascinou-me, prendeu-me. Numa atitude algo camaleónica mudava de cor: do seu característico amarelo relampejante, berrante até, foi enrubescendo, passando por todos os imagináveis tons de laranjas ou alaranjados. E estes seus caprichos contagiavam tudo em seu redor. A ponto de os escassos e etéreos farrapos de nuvens presentes naquele firmamento estival se incendiarem, como que de moto próprio, em tinturas de carmins apaixonados, rosas inocentes e púrpuras reais. E então, subitamente, o astro-rei começou a afundar-se por detrás das serras, como que procurando santuário por um qualquer crime chamejante cometido naquele dia. E como que envergonhado de toda a sua flagrante conspicuidade, ocultou-se numa questão de segundos. Para trás fica todo um trilho de réstias de luz que se confundiam e associavam num caleidoscópio de cores, único vestígio do aparente opróbrio do Grande Astro. Esperava assistir ao dissipar de toda aquele espectáculo até ao advento da penumbra vespertina em todos os seus azuis carregados de promessas de noite e escuridão.

Atónito fiquei, portanto, quando não muito depois, o Astro envergonhado espreitou de novo num dos cumes da serra. E tão subitamente quanto tinha desaparecido, voltou, em todo o seu esplendor, para reclamar à noite alguns instantes para o dia. Mas não conseguiu impor-se contra as leis naturais por muito, e apenas durante uns momentos fui eu capaz de gozar mais um pouco do calor dos seus raios na minha face. E assim, obedecendo contrariado aos imperativos naturais, voltou-se a afundar-se nas serranias algarvias com delongas quase fatalistas. Por cinco vezes se repetiu o fenómeno e não pude evitar pensar na sua singularidade. Aquela sucessão de “micro-dias” e “micro-noites” em espaços de tempo inconcebíveis fez-me pensar no futuro.

Onde estarei eu daqui a uns quantos ocasos?

(Algures no príncipio de Agosto de 2007)

Carta de Amor de um Biólogo

Li isto numa página de Biologia quando andei a pesquisar o Google já não sei bem porquê. Isto é principalmente para ti Ana que só gozas com os biólogos! Have fun!

«Você tem uma nomenclatura muito linda, mas saiba que eu a amaria mesmo que você se chamasse Ergastoplasma... Sabe que quando a vejo, minhas mitocôndrias entram em fermentação, a meiose acelera - se e os meus gâmetas ficam todos assanhados? É verdade porque você tem um fenótipo tão lindo que tenho uma tese de que o seu código genético foi sequenciado por um artista muito inspirado, em plena geração espontânea.
Quando você surge, em movimentos amibóides, bela, túrgida e charmosa, começo a sentir os efeitos das reações físico-químicas no meu organismo. O seu tropismo em relação a mim afecta o córtex do meu sistema sensorial! Ao tocar na sua celulósica mão, os nossos glicocálix encontram-se. E se os seus olhos, perdidos, semelhantes a ocelos de planária, não se cansam de me fixar, é porque a minha antena está ligada a você. A sua cetácea presença mexe com as minhas enzimas, hormonas, neurotransmissores, até a minha cadeia respiratória já não funciona bem , nem mesmo para a coordenação do meu trémulo tríceps. Do meu frontal escorre o que restou de secreção sudorípara. As suas ferormonas tiram-me realmente da homeostase. os seus cílios e pillos causam-me flagelos impensáveis. Palpitações sistólicas rebentam o meu pericárdio.
Ah, querida, e quando quero repôr as perdas metabólicas e a levo a uma pastelaria para posicionar os nossos níveis tróficos, a única gelatina que nos interessa é aquela biomassa saborosa a que chamamos meio de cultura! Mas apesar da nossa relação harmónica em franca evolução, ultimamente você está num estado de isolamento do que foi a nossa protoplasmática simbiose. Sabe, se você continuar tratando-me com tanto acaso, vou me sentir menos que um insecto, um verme! Você dá mais atenção às suas amigas, aquela tal de Drosóphila, à Taenia, a quem, por sinal, nunca fui apresentado, do que a mim... E quem é esse tal de Rhesus, hein? Ah meu Deus! Será que estou com complexo de Golgi? Devo estar entrando naquele ciclo maldito - o ciclo de Krebs... e se esse processo selectivo continuar sou capaz de cometer uma loucura, uma apoptose.
Por favor, não me trate assim de forma virulenta, feito uma amiba ou um "Cavia porcellus porcellus", pois a estes sei que você dedica apenas olhares científicos e sem paixão. Eu não sou uma cobaia de laboratório. Eu não bacilo nem quando fico como um vibrião colérico. Espero que você deduza que o meu sonho é passear abraçadinho consigo igual a um carrapato, num lindo dia de sol, em Galápagos, dizendo para mim mesmo: Cromossomos felizes!"»

Fim e Começo

Acabou-se a papa doce! Ah pois é amigos, já se acabaram as férias. E por isso este blog vai voltar ao activo! E, pela 12ª vez acaba-se um ciclo de descanso para começar o de trabalho. É sempre um misto de sensações nesta altura. Normal, visto ser um término e um início ao mesmo tempo. Há a tristeza e melancolia de um fim e a excitação de um começo. Um dualismo, uma dissonância, uma contradição; como tudo acaba por ser neste blog.

E falando do blog, durante os próximos dias vou publicando umas coisas que fui fazendo ou lendo durante estas férias. Espero que leiam e comentem!

Bem-vindos a mais um ano lectivo dissonante. (Como não podia deixar de ser.)


Fotografia: http://www.fotodependente.com/img1057.htm


domingo, 24 de junho de 2007

Momentos

No fundo foi um conjunto de momentos. Uma tarde prolongada. Rimos, conversamos, andamos de baloiço, aprendeMOS a jogar bilhar… Dissemos e fizemos porcaria – inclusive ajudar à ruína do cesto de basquetebol da Pipa e discutir o que se deviria usar nestes casos: se travessões se parênteses – mas não interessa, visto que isso faz parte. E ainda bemque assim é! Bem, mas pus-me a pensar nessa magnifica tarde em que rimos e choramos – lá vem o travessão outra vez, para dizer que não, não é um exagero porque ela quase chorou com um ataque de cócegas bem merecido; onde é que já se viu roubar-nos uma bola de bilhar – pus-me a pensar dizia eu, o que geralmente não dá muito bom resultado, e conclui que dentro em breve tardes como estas, simplesmente revigorantes, daquelas que nos lavam a alma e o espírito de coisas baixas – leia-se exames – pela convivência com aqueles de que mais gostamos, vão simplesmente deixar de existir. Pronto, não sejamos brutais, peço desculpa, vão passar a rarear – embora toda a gente saiba que isto é um eufemismo barato.

É certo que existirão outras tardes, magnificas também, mas não vão ser as mesmas, porque são as pessoas que fazem os momentos. O tempo pode passar por nós pavoneando-se eternamente jovem e mostrando-nos um sorriso de escárnio. Mas que sorriso amarelo esse! O tempo é o vagabundo deformado e mutante que jaz na valeta, é o ser abjecto e solitário que ninguém reconhece, que ninguém quer conhecer. Recordamos os momentos porque eles nos estão associados a pessoas, às pessoas que nos marcam – por vezes indelevelmente como é o caso. O tempo é o bode expiatório, é o macaco da culpa. É aquela criação a que o criador renuncia. Criámos a noção de tempo, desse eternamente jovem, e renunciámos a ela porque nos fazia “dor de cotovelo”. Nem mais meus caros. Ora já me viram isto? Quer dizer, anda aqui uma pessoa a esfalfar-se uma vida toda e morre ao fim duns míseros 60 anos, e esse mandrião que não faz nenhum senão passar por nós não tem um fim? Ora, é legítimo que cause confusão e desconforto.


Mas, paradoxalmente, ao fazermos essa renúncia tiramos-lhe tudo aquilo pelo qual o renunciámos. É que o tempo tinha mais do que nós, crime abominável, mas ao privamo-lo de nós, tiramos-lhe uma parte essencial: a identidade! O que é o tempo? Pois, dirão que é complicado definir porque é algo de muito abstracto, blá blá blá; não tenham medo de se mostrar ignorantes neste aspecto, é que nisso somos todos. Não o definimos porque não nos dá jeito, quem é que quer estar a “espremer” e compreender algo que nos conduz à velhice, às rugas, à morte? Sejamos francos, não somos heróis românticos com tendências masoquistas: meros humanos é a melhor definição! Mas voltando à identidade do tempo, para ser coerente à não-identidade do tempo, a nossa renúncia fez dele um vagabundo maltrapilho sem ninguém. Em bom português: um Zé-ninguém! Disto resulta, que ninguém pensa que se cruzou casualmente com a prima da vizinha às 16:47 do dia 9 de Agosto de 1998. Depois ainda há os relógios, que não passam de um subterfúgio de uma sociedade facilitista. Senão vejamos, seria complicado pensarmos que íamos ter com aquele amigo ao bar, depois de tomarmos café com o pessoal do liceu, depois de jantarmos com o chato cliente, depois de termos ido às compras à procura de algo para aplacar a fúria de uma namorada irritada, depois de passarmos uma tarde no escritório, depois de termos almoçado com a saudosa e santa mãezinha…podia continuar até o Sol raiar. É de facto mais fácil pensar que temos de tar no bar ás 11h da noite. Em boa verdade as horas, dias, etc., também não existem. Mas não compliquemos.

O que realmente interessa retirar deste estúpido devaneio é que, em última análise, o tempo não passa de algo irreal e realmente decadente e que o que para nós interessa são as pessoas! Podem voltar a haver tardes parecidas, mas nunca vão ser as mesmas. Pelo menos, aquele arco-íris com a mania que sabe jogar bilhar não vai mais brindar-nos com o seu jeito algures entre o inseguro e o arisco, com o seu sorriso, com a sua espontaneidade – repito, passa na cabeça de alguém roubar-nos a bola de bilhar?

Vais fazer falta!

E neste momento eu invejo aquele eterno jovem decrépito e abandonado, porque queria poder parar o tal tempo naquela tarde; ficar ali no jardim da Pipa e gozar do melhor do que a vida tem para oferecer: amigos, Sol, ice-tea, morangos…ah e uma mesa de bilhar!

sábado, 16 de junho de 2007

Aves

Estas não partem na Primavera, mas sim no Outono. Abrem as asas, elevam-se em direcção aos céus. E aí vão eles. Em direcção aos sonhos, à vida...

É sempre mais triste para quem fica. À espera da sua oportunidade para poder voar também. Dizem-nos que ainda temos as asas curtas, que temos de esperar. E lá ficamos nós a vê-los partir com um misto de felicidade e inveja.

Batem orgulhosamente as asas, aves realmente raras estas! E nós sonhamos como vai ser a nossa vez. A ansiadade entra em crecendo. Mais não seja pela saudade. E agora? Lá vai parte de nós, sabe-se lá bem para onde...

Não podemos realmente pedir que esperem por nós, cada um tem o seu tempo, mas podemos pedir que não se esqueçam de nós, não podemos?

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Equações matemáticas

Porque é que continuas a pensar que 2 + 2 são sempre quatro? Porque é que não há variáveis no teu mundo? Porque é que tudo é sempre regido por leis e normas? É assim. É sempre assim. Não há desculpa, atenuante, variante, hipótese, excepção... Tudo é certo e determinado.

Não, para mim não. Não te entendo; confesso. Talvez seja demais para mim, comum mortal. Mas para mim a razão não é tudo, não pode ditar tudo. Só funcionam as equações da maneira que a ju as escreve. Nem sempre 2 + 2 são quatro. Eu vivo assim. Incerto, é certo. Mas feliz.

E tu, és feliz?
Onde andas tu?

Sim, tu? Porque não haverias de ser tu?

Porque não seria este post para ti?

Sim tu, por onde andas?


É que, será que de onde andas me sabes dizer onde ando eu? É que eu não sei..

Atraso de vida

Era um explorador intérpido e ousado! Desbravou florestas, correu livre por praias desertas, cavalgou as ondas de cem mares. Governou navios, armadas, exércitos. Salvou donzelas, encantou damas, arrebatou mulheres. Conquistou fortalezas, nações, continentes, o Mundo, o Universo...

Acordou...

Mando-lhe uma mensagem de bons dias? Nah, melhor não...

segunda-feira, 11 de junho de 2007

A Outra Metade de Mim

One half of me is yours, the other half yours, mine own, I would say;
but if mine, then yours, and so all yours!

És uma grande egoísta pah!
Mas espera, se isto funcionar ao contrário o egoísta sou eu!!

Não admira que tenhas problemas de identidade!!

O importante é que, pela Natureza humana, não podemos gostar mais de nada do que nós próprios, logo, se tu és eu e eu sou tu, estamos bem assim, não é?

O homem

"Apres tout qu'est-ce que ça change
L'Homme saura toujours trouver
Toutes les femmes du monde entier
Pour lui chanter ses louanges
Des qu'il en sera lasse
Elles seront vite oubliées
Vraiment, vous n'étés pas des anges."

Johnny, Vaya con Dios

Gostei sinceramente da discrição: vocês não são nenhuns anjos.
Acho que aí é que está, nós não pretendemos sê-lo, vocês é que pensam que sim!

Apenas uma gota a juntar ao imenso oceano da incompreensão mútua de ambos os géneros.


P.S. Grande música e grande grupo! :)

Asas


Un, deux, trois…

E elas voavam pelo palco.
Arrebatadoramente belas.
E voavam de facto, nas asas da imaginação.

Un, deux, trois…mon soleil c’étais toi

Esvoaçantes, insignes…
A névoa de êxtase adensava…

Trois, deux, un…


Foi simplesmente fantástico!

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Saudade


Maldito fado luso
Que assim me faz sentir
Esta opressão em peito recluso.

Maldito destino lusíada
Que assim me faz sofrer
Desdita digna de Ilíada.

Maldita fortuna lusitana
Que tem a glória de ser
Pior que as Tormentas e a Taprobana.

Maldita ventura da Ocidental fita
Que assim não me deixa esquecer
Maldita, saudade maldita.

The Almighty, Irving Wallace


Levanta-se. Resolve contratar um bando terrorista para fazer ataques por encomenda. Excentricidades de milionário. Decide raptar o Rei de Espanha fingindo ser a ETA. E depois talvez o Secretário-geral das Nações Unidas. Porque não assassinar o primeiro-ministro de Israel? Já agora vamos fazer explodir o Air Force One com Sr. Presidente dos EUA lá dentro. Bahhh, coisita pequena. Ah, não se pode esquecer de assassinar a mulher; sabe demais.

Assustador não?


Rússia

Escândalos:

Carolina Salgado publica um livro.
José Sócrates falsificou o diploma.
Eusébio é operado.
Um actor dos Morangos está no hospital.
(…)

Banalidades naturais:

Jornalistas assassinados.
Manifestações reprimidas ao estilo ditatorial.
Censura digna da PIDE.
(...)

Prioridades noticiosas ligeiramente baralhadas não?

Lisboa

Não, não vou dissertar sobre a situação da Câmara de Lisboa, do seu buraco orçamental, ou do Sr. Carmona, ou das eleições que aí vêm. Não, para isso lá estão os jornalistas ávidos de falências, violências e outros vocábulos acabados em “ências” (que o diga o Sr. Pinto da Costa). Apenas pretendo comentar um discurso de um candidato que ouvi no Jornal da 2:. Dizia o candidato à Câmara do Partido Monárquico (PM) do qual, peço desculpa, me escapa o nome que o seu programa se resumia a 3 pontos:

1º. Tornar o Parque Mayer e os Restauradores numa nova Broadway.
2º. Fazer os lisboetas gozar mais o Tejo oferecendo um barco a todas as escolas e associações.
3º. Organizar um Festival Internacional de Fado.

Caricato, não? To say the least.


Mas numa coisa há que dar a mão à palmatória: é original e não vem prometer o que não pode cumprir. Qualidade rara na política de hoje em dia!

Torpor Apático

Levanto-me. Verdade seja dita que cada vez com menos vontade. O dia passa. As mesmas conversas, os mesmos temas, as mesmas pessoas, a mesma rotina. Um teste, uma ficha, uma apresentação, um relatório, um trabalho…há sempre alguma coisa a preocupar e a enegrecer o horizonte próximo.

As criancices que me envolvem não têm a mesma piada, parece que andam cada vez mais infantis…Ou talvez a minha paciência não esteja nos seus dias áureos…
Basicamente estou farto. Farto ver de tudo na mesma. Nada muda…

Não há novidades…Asfixio sob o peso desta vida rotineira…

Deito-me. Adormeço sob o peso do cansaço e da rotina maçadora e fatigante.
Mais um dia…

Diriam muitos que pior seria se houvessem novidades más que agitassem as coisas mas para nos fazer chorar…Olhem, já nem sei!

Esta letargia mata-me.