Contradições, ambiguidades, paradoxos, hesitações, antinomias, incertezas, erros, equívocos, enganos... disto é feito o mundo que me rodeia assim como eu mesmo...no fundo, não passamos de acordes dissonantes numa monumental mas desarmoniosa sinfonia...aqui vão apenas algumas "notas" d'aquém e d'além minh'alma para ajudar ao todo...
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quinta-feira, 29 de setembro de 2011
D'Aquém politiquices: d'o excepcional poder de antevisão dos nossos políticos
Qualquer pessoa honesta e que aja de boa-fé estará disposta a concordar com a ideia de que os nossos políticos têm uma capacidade ímpar de realizar projecções realistas, mesmo que sejam a 10 anos. Se alguma dúvida houvesse, bastaria relembrar as projecções certeiras do exilado em Paris e do seu Ministro das Finanças. Pois bem, é mais uma vez o mesmo quadrante político que nos dá provas de inigualável capacidade de previsão: pese embora o Orçamento do Estado para 2012 apenas ter "apresentacao marcada para 15 de Outubro, a bancada do PS discutiu hoje - 29 de Setembro - o sentido de voto". Que génio, que rasgo o destes políticos! Realmente, a culpa do estado a que chegámos deve-se, indubitavelmente, à crise internacional e aos malvados dos especuladores.
(Via Filipe Nascimento no 31 da Armada).
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
D'Além Jugular: Perdidos na Demagogia
João Galamba publicou à pouco no Jugular a seguinte informação.
Desde já, creio eu, fica todo e qualquer um que leia a mencionada pérola extremamente agradecido pela generosidade do autor em as distribuir assim. Pretende o autor interpretar os resultados da famigerada sondagem sobre os cortes na despesa pública, em que a esmagadora maioria da população portuguesa lhes manifestou o seu apoio e a crença na sua inevitabilidade. Advoga então João Galamba que o apoio dos portugueses a medidas de corte na despesa pública não implica "qualquer apoio entusiástico aos cortes na saúde, educação e segurança social que aí vêm". Conclui dizendo: "Agora que já se percebeu que, de acordo com a estimativa do próprio governo, o corte nas gorduras equivale apenas a 100 milhões de euros, talvez valesse a pena refazer a sondagem e perguntar de novo." Fica uma pérola para a hermenêutica.
Adivinha-se aqui uma dupla contradição. Sendo o objectivo perceptível da publicação o de relativizar os dados da sondagem, procurando afirmar que não revelam apoio às políticas do Governo, João Galamba afirma que os portugueses não apoiam os cortes na educação, saúde e segurança social. Mas conclui que a sondagem deveria ser refeita devido aos cortes nas despesas já anunciados não em qualquer uma dessas áreas, mas no funcionalismo da Administração Central. Por outro lado, dá a entender que os portugueses apenas se revelaram tão magnânimos no seu apoio a estas políticas porque a maioria ainda não foi posta em prática. Assevera assim, que a sondagem deveria ser repetida agora que se sabe que apenas foram cortados 100 milhões. Fica-se na dúvida se, afinal, os portugueses não apoiam estas políticas porque elas cortam demais no sacrossanto Estado Social, se porque elas cortam de menos, tendo-se apenas poupado 100 milhões até agora. Afinal, qual será essa verdadeira opinião das massas portuguesas que só o autor conhece: não apoiam os cortes no Estado Social, não apoiam os cortes no funcionalismo, não apoiam os cortes de todo ou acham que afinal os cortes ainda são poucos?
Quando os argumentos falham, lançam-se afirmações sonantes mas desconexas para tentar fazer passar a falácia. Já agora atente-se também no desprezo pela capacidade crítica dos portugueses - que afinal andam todos a engolir patranhas do Governo -, desprezo esse vindo de quem tanto defendia a "sacralidade" da opinião popular que sustentou um desvario de 6 anos. Enfim, fica a sensação que João Galamba considera que o povo é estúpido e crédulo, mas que isso só é um problema quando a credulidade popular não apoia a sua ideologia (ou falta dela).
(Image copyrights: www.cartoonstock.com)
Desde já, creio eu, fica todo e qualquer um que leia a mencionada pérola extremamente agradecido pela generosidade do autor em as distribuir assim. Pretende o autor interpretar os resultados da famigerada sondagem sobre os cortes na despesa pública, em que a esmagadora maioria da população portuguesa lhes manifestou o seu apoio e a crença na sua inevitabilidade. Advoga então João Galamba que o apoio dos portugueses a medidas de corte na despesa pública não implica "qualquer apoio entusiástico aos cortes na saúde, educação e segurança social que aí vêm". Conclui dizendo: "Agora que já se percebeu que, de acordo com a estimativa do próprio governo, o corte nas gorduras equivale apenas a 100 milhões de euros, talvez valesse a pena refazer a sondagem e perguntar de novo." Fica uma pérola para a hermenêutica.
Adivinha-se aqui uma dupla contradição. Sendo o objectivo perceptível da publicação o de relativizar os dados da sondagem, procurando afirmar que não revelam apoio às políticas do Governo, João Galamba afirma que os portugueses não apoiam os cortes na educação, saúde e segurança social. Mas conclui que a sondagem deveria ser refeita devido aos cortes nas despesas já anunciados não em qualquer uma dessas áreas, mas no funcionalismo da Administração Central. Por outro lado, dá a entender que os portugueses apenas se revelaram tão magnânimos no seu apoio a estas políticas porque a maioria ainda não foi posta em prática. Assevera assim, que a sondagem deveria ser repetida agora que se sabe que apenas foram cortados 100 milhões. Fica-se na dúvida se, afinal, os portugueses não apoiam estas políticas porque elas cortam demais no sacrossanto Estado Social, se porque elas cortam de menos, tendo-se apenas poupado 100 milhões até agora. Afinal, qual será essa verdadeira opinião das massas portuguesas que só o autor conhece: não apoiam os cortes no Estado Social, não apoiam os cortes no funcionalismo, não apoiam os cortes de todo ou acham que afinal os cortes ainda são poucos?
Quando os argumentos falham, lançam-se afirmações sonantes mas desconexas para tentar fazer passar a falácia. Já agora atente-se também no desprezo pela capacidade crítica dos portugueses - que afinal andam todos a engolir patranhas do Governo -, desprezo esse vindo de quem tanto defendia a "sacralidade" da opinião popular que sustentou um desvario de 6 anos. Enfim, fica a sensação que João Galamba considera que o povo é estúpido e crédulo, mas que isso só é um problema quando a credulidade popular não apoia a sua ideologia (ou falta dela).
(Image copyrights: www.cartoonstock.com)
domingo, 18 de setembro de 2011
D'Aquém: A Madeira de uma Cruz
A blogosfera e o jornalismo, reflectindo a opinião pública portuguesa no geral, sofrem de uma falta de coerência estonteante. De mim não se lerão palavras em defesa daquele estulto senhor que (des)governa a Madeira, mas a crucificação e apedrejamento público a que ele se viu sujeito nos últimos dias têm sido hilariantes. Relembrar o passado recente é exercício mental indispensável à manutenção da coerência nas posições que assumimos. Uma coisa será dizer algo aos 18 e o seu contrário aos 38. Outra bem diferente é ventilarmos a opinião da moda sem o pudor de nos prendermos às convicções que tão acerrimamente defendíamos há três ou quatro anos. É o velho adágio: dois pesos e duas medidas.
"A Madeira é a cruz da República!!" oiço-os brandar histericamente! A Madeira, meus caros, é mais uma acha para uma fogueira já bem viva. Nada tenho contra o apedrejamento político desse senhor. Cada um faz a cama em que se deita. Mas poderia vir cheio de azedume defender o erro actual com os indultos generosamente concedidos a erros semelhantes no passado. E embora muitos chamem a tal exercício o expoente de uma retorcida e balofa retórica, não deixa de ser curioso que essa seja precisamente a base da jurisprudência. Mas não, não vou ser desses.
Mas sou dos que se revolta quando as massas arranjam um bode-expiatório que, na memória colectiva, em pouco tempo se tornará o Diabo na Terra, gerador de todo o pecado e sofrimento lusos. E na cruz em que se há-de pregar este pecador se hão-de redimir os actos e omissões de tantos outros. Mas este, o condenado, não dará em religião. A verdadeira religião e fanatismo será a dos redimidos, cujo advento surgirá dessa celestial Cidade das Luzes e é aguardado por muitos que nestes tempos de trevas jogam pelo Seguro. E envolto nas Luzes da filosofia virá, com infinita sapiência, julgar madeirenses e continentais e o seu Reino não terá fim. Ámen.
Entre o senhor da Madeira e os que por cá, no Continente, se quedaram nos últimos anos, quem de facto se vê crucificado é o contribuinte.
(Na imagem: A Crucificação do contribuinte português, um impressionante trabalho de ante-visão do século XVII por Vouet)
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Mas sou dos que se revolta quando as massas arranjam um bode-expiatório que, na memória colectiva, em pouco tempo se tornará o Diabo na Terra, gerador de todo o pecado e sofrimento lusos. E na cruz em que se há-de pregar este pecador se hão-de redimir os actos e omissões de tantos outros. Mas este, o condenado, não dará em religião. A verdadeira religião e fanatismo será a dos redimidos, cujo advento surgirá dessa celestial Cidade das Luzes e é aguardado por muitos que nestes tempos de trevas jogam pelo Seguro. E envolto nas Luzes da filosofia virá, com infinita sapiência, julgar madeirenses e continentais e o seu Reino não terá fim. Ámen.
Entre o senhor da Madeira e os que por cá, no Continente, se quedaram nos últimos anos, quem de facto se vê crucificado é o contribuinte.
(Na imagem: A Crucificação do contribuinte português, um impressionante trabalho de ante-visão do século XVII por Vouet)
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
D'Aquém Governação: Mitos e Desmitos
Sei que por esse país fora anda o ensino de Matemática pelas ruas da amargura. Mas custa-me, não obstante, ouvir e ler tantas e repetidas vezes mentiras debitadas à boca cheia. Interpretações à parte aí ficam os números. Cada um fará deles a análise que bem entender. Mas os números são estes. E como dizia o outro: contra factos não há mesmo argumentos.
Nos últimos 15 anos de governação em Portugal - mais precisamente entre as eleições legislativas de 25 de Outubro de 1995 e as eleições legislativas de 5 de Junho de 2011 - usufruíram de poder executivo 6 Governos Constitucionais. Quatro liderados pelo PS, sempre sozinho - (Guterres I, Guterres II, Sócrates I e Sócrates II) - e dois liderados pela coligação PSD-CDS (Barroso e Santana).
Entre 25 de Outubro de 1995 e 5 de Junho de 2011 passaram-se 5715 dias. António Guterres governou 2352 dias desse total, a coligação PSD-CDS governou 1071 dias e José Sócrates governou os restantes 2292 dias. Ou seja, dos últimos 15 anos, a coligação PSD-CDS responde por 18,74%, António Guterres por 41,16% e José Sócrates por 40,10%.
Daqui se retira que dos últimos 15 anos de governação em Portugal, o Partido Socialista esteve à frente dos desígnios desta Nação durante 81,26% do tempo. Ou seja, 4/5 dos últimos 15 anos. Não necessitando de arredondamentos, o PS governou 12 dos últimos 15 anos e (para quem prefere trabalhar à década) 7 dos últimos 10.
Tudo isto foi completamente evidente no último congresso do Partido Socialista e na postura do seu novo líder António José Seguro.
Nos últimos 15 anos de governação em Portugal - mais precisamente entre as eleições legislativas de 25 de Outubro de 1995 e as eleições legislativas de 5 de Junho de 2011 - usufruíram de poder executivo 6 Governos Constitucionais. Quatro liderados pelo PS, sempre sozinho - (Guterres I, Guterres II, Sócrates I e Sócrates II) - e dois liderados pela coligação PSD-CDS (Barroso e Santana).
Entre 25 de Outubro de 1995 e 5 de Junho de 2011 passaram-se 5715 dias. António Guterres governou 2352 dias desse total, a coligação PSD-CDS governou 1071 dias e José Sócrates governou os restantes 2292 dias. Ou seja, dos últimos 15 anos, a coligação PSD-CDS responde por 18,74%, António Guterres por 41,16% e José Sócrates por 40,10%.
Daqui se retira que dos últimos 15 anos de governação em Portugal, o Partido Socialista esteve à frente dos desígnios desta Nação durante 81,26% do tempo. Ou seja, 4/5 dos últimos 15 anos. Não necessitando de arredondamentos, o PS governou 12 dos últimos 15 anos e (para quem prefere trabalhar à década) 7 dos últimos 10.
Tudo isto foi completamente evidente no último congresso do Partido Socialista e na postura do seu novo líder António José Seguro.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
D'Além Meditação na Pastelaria: Esquerda, Direita e Moral
Um comentário interessantíssimo de Manuel Vilarinho Pires a um poste igualmente interessante da Meditação na Pastelaria.
Tocou exactamente no ponto me faz, já bem passado dos 50 anos, achar aberrante ser de esquerda.
"Esquerda e Direita divergem. A última quase sempre por razões de fé, a primeira invocando razões de autonomia".
Não sei se é por razões de autonomia, que se poderiam também chamar de razões de liberdade.
A mim, parecem-me razões de moral. A esquerda acha imoral não ter a liberdade de escolher quando e como (abstraemo-nos das limitações que a natureza coloca) morrer. Como acha imoral ser impedido de exercer livremente a sua orientação sexual. Mas acha imoral a liberdade de exercício de actividade económica. Acha que esta liberdade conduz à libertinagem, ao abuso, e deve ser regulada. Receio partilhado pela direita no domínio da liberdade sexual, ou de morrer quando se entende, que também considera que devem ser reguladas para não cair na libertinagem. Por razões de moral. Não necessariamente de fé, mas certamente de moral.
Não é o respeito pela autonomia, ou pela liberdade, que distingue a direita da esquerda. É o quadro de referência moral que é diferente. Naquilo que receiam que a liberdade resulte mal, correm os dois a substituí-la pela regulação pelo Estado.
Pelo que também seria aberrante, já bem passado dos 50 anos, ser de direita.
Quem gosta de liberdade não pode ser de esquerda nem de direita.
Tocou exactamente no ponto me faz, já bem passado dos 50 anos, achar aberrante ser de esquerda.
"Esquerda e Direita divergem. A última quase sempre por razões de fé, a primeira invocando razões de autonomia".
Não sei se é por razões de autonomia, que se poderiam também chamar de razões de liberdade.
A mim, parecem-me razões de moral. A esquerda acha imoral não ter a liberdade de escolher quando e como (abstraemo-nos das limitações que a natureza coloca) morrer. Como acha imoral ser impedido de exercer livremente a sua orientação sexual. Mas acha imoral a liberdade de exercício de actividade económica. Acha que esta liberdade conduz à libertinagem, ao abuso, e deve ser regulada. Receio partilhado pela direita no domínio da liberdade sexual, ou de morrer quando se entende, que também considera que devem ser reguladas para não cair na libertinagem. Por razões de moral. Não necessariamente de fé, mas certamente de moral.
Não é o respeito pela autonomia, ou pela liberdade, que distingue a direita da esquerda. É o quadro de referência moral que é diferente. Naquilo que receiam que a liberdade resulte mal, correm os dois a substituí-la pela regulação pelo Estado.
Pelo que também seria aberrante, já bem passado dos 50 anos, ser de direita.
Quem gosta de liberdade não pode ser de esquerda nem de direita.
D'Além Memória e d'Aquém Vergonha
Via: Cachimbo de Magritte.
Rádio Renascença: António José Seguro considera que quem colocou a Madeira na bancarrota não pode agora pedir que outros paguem a dívida. “Nós ouvimos o líder regional do PSD dizer que precisava rapidamente de dinheiro. O PSD-Madeira pôs a Madeira na bancarrota, tem um buraco colossal, gaba-se disso e pede que sejam os outros a pagar a factura da sua irresponsabilidade”, acusa o líder do PS.
Segundo a lógica do Tó Zé, temos mesmo é que fazer novas eleições e pôr o PS no governo o quanto antes, porque isto afinal quem leva os Estados à bancarrota é que se deve responsabilizar e pagar a factura. É uma injustiça e violência exigir-se agora do PSD que reponha as coisas na ordem, quando os Governos PS dos últimos 6 anos nos deixaram neste estado. O sentido de dever de Tó Zé é tão grande, que propôs ainda um imposto extraordinário sobre todos os rendimentos dos 90% de delegados do PS que apoiaram cegamente José Sócrates no último congresso. Não faz sentido, diz Tó Zé, que os portugueses que têm dois dedos de testa paguem pela obstinação inconsequente de alguns!
Rádio Renascença: António José Seguro considera que quem colocou a Madeira na bancarrota não pode agora pedir que outros paguem a dívida. “Nós ouvimos o líder regional do PSD dizer que precisava rapidamente de dinheiro. O PSD-Madeira pôs a Madeira na bancarrota, tem um buraco colossal, gaba-se disso e pede que sejam os outros a pagar a factura da sua irresponsabilidade”, acusa o líder do PS.
Segundo a lógica do Tó Zé, temos mesmo é que fazer novas eleições e pôr o PS no governo o quanto antes, porque isto afinal quem leva os Estados à bancarrota é que se deve responsabilizar e pagar a factura. É uma injustiça e violência exigir-se agora do PSD que reponha as coisas na ordem, quando os Governos PS dos últimos 6 anos nos deixaram neste estado. O sentido de dever de Tó Zé é tão grande, que propôs ainda um imposto extraordinário sobre todos os rendimentos dos 90% de delegados do PS que apoiaram cegamente José Sócrates no último congresso. Não faz sentido, diz Tó Zé, que os portugueses que têm dois dedos de testa paguem pela obstinação inconsequente de alguns!
domingo, 11 de setembro de 2011
D'Aquém Ignomínia: Congresso do PS
Sobre a falta de vergonha e o opróbrio público a que se sujeitam indivíduos que, a bem do país, se esperaria que tivessem mais valor, alguém já disse tudo o que há para dizer:
"Le ridicule déshonore plus que le déshonneur."
Maximes (326), de Francois, Duque de la Rochefoucault
Tradução livre: O ridículo desonra mais que a própria desonra.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
sábado, 3 de julho de 2010
D'Aquém: a Alegria
Numa alegre reunião, subiu Alegre alegremente ao palco para nos brindar com mais uma tirada de alegre humor:
"Não quero na Presidência alguém que tenha a superstição dos mercados"
O senhor Alegre depois de tanta convivência com o senhor de Sousa ganhou o gosto a criar jogos de ilusão - como o recente de que os nossos níveis de desemprego estão em linha com a Europa. O senhor Alegre talvez me queira convencer que o 1% que estamos a pagar a mais de IVA desde anteontem, ou o próprio desemprego que não desce, ou a subia dos juros da dívida pública também são todos superstições e mistificações.
O senhor Alegre que continue a escrever trovas à Bandarra e não venha todo néscio e estulto dizer que não percebe nada de Economia para de seguida nos presentear com pérolas destas. Fique-se com o reconhecimento de que de facto de Economia nada percebe e tenha um bom dia.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Aprendendo com os antigos I
Acredito piamente que a falta de atenção às lições de História é responsável por uma grande falta de perspectiva da qual padecem largos milhares de Portugueses. Se quando sentados no banco da escola desenhassem menos corações entre suspiros e mandassem menos SMSs - sim, eu percebo que era mesmo urgente -, teriam, porventura, tido oportunidade de aprender uma grande lição: que isto de políticos é uma raça que por cá se queda há uns já valentes milhares de anos e que pelas medidas dos que já se finaram se tira a pinta aos de hoje e aos que mais tivermos de vir a sofrer. (Pensando bem, dada a cada vez maior decadência do ensino após o consulado da outra senhora, acho que nem que os alunos quisessem...) Back on track, já os ouço clamar: "Ah, mas então e o progresso da raça humana?" Certo é que já ninguém rasga as vestes como os Romanos, mas politicamente falando, o progresso resume-se à notavelmente célere aprendizagem de como capitalizar as novas tecnologias e desenvolvimentos em proveito próprio; digo: em proveito dos mais altos interesses do Estado. (Estou a esforçar-me por me actualizar com as novas referências semânticas...)
Um caso curioso que ilustra esta ingenuidade lusa passou-se precisamente com esses Romanos - que bem dizia o pequeno gaulês, e com alguma razão, que eram loucos. Deu-se isto lá por volta dos últimos cinco séculos antes do nascimento de Cristo na cidade de Roma. Na época era Roma uma República governada por um punhado de aristocratas e queixava-se a plebe (não lhe faltando a razão) que expulsara o último Rei para nada, visto que do poder prometido nem o cheiro. Ora o descontentamento deu em divórcio unilateral (e acha o governo que é progressista) quando o Senado elegeu para cônsul um senhor de elevada estirpe e igualmente elevado nariz: Appius Claudius Inregillensis. O que é o fizeram esses sábios romanos confrontados com as atitudes desse tiranozito empertigado? Mataram-no? Protestaram nas ruas? Deitaram fogo à cidade? Nada disso! Fizeram o que ficou conhecido para a história como: secessio plebis. Ou seja, toda a plebe (a esmagadora maioria da cidade claro está) abandonou Roma e acampou num monte ali perto, deixando os aristocratas para se governarem a eles mesmos. De génio! Claro está que conseguiram o que queriam e esse ano de 494a.C. viu a criação da magistratura do Tribuno da Plebe, cuja eleição dependia não do Senado mas do Populusque Romanus.É que isto de querer comer e não haver quem produza, transporte, venda e confeccione o repasto é coisa que deve ter alterado os mais altos interesses do Estado. E nem quero imaginar a desdita dos pobres senadores, que tiveram que ouvir as Julias, as Claudias, as Fabias e as Valerias em ataques apopléticos quando perceberam que as lojas estavam todas fechadas!
Ora como em equipa que joga bem não se mexe (algo que o Sr. Queiroz devia ter percebido antes de substituir o Hugo Almeida no funesto jogo de Terça), a plebe voltou a utilizar a mesma receita um punhado de vezes mais nas centúrias seguintes. Quando a necessidade assim o obrigava, lá se empacotava tudo muito bem e se ia passar uns dias de descanso ao campo à espera que os senhores de toga capitulassem da sua arrogância. Famosos ficaram os gerados pela recusa do Senado das Leges Duodecim Tabularum (449 a.C.) da Lex Canuleia (445 a.C.) ou da Lex Hortensia (287 a.C.). Ora com o tempo a plebe foi ganhando poder em Roma, sendo-lhe ultimamente abertas todas as magistraturas, pontificados e o assento no Senado. E já os ouço: "Ahah! Então não foi ingenuidade nenhuma! Deu resultado. Vamos todos organizar uma deslocação de Lisboa para o Monte da Caparica e ficamos lá à espera que pelas janelas dos gabinetes do Terreiro do Paço entrem ares de bom-senso e o governo tenha uma epifania!"
A questão é que nada mudou realmente. A plebe ficou possibilitada de concorrer nas eleições aos cargos públicos, de facto. Mas quem tinha os milhares de sestércios necessários para subornos e organização de jogos para conseguir assegurar uma eleição? Os ricos! Plebeus, mas ricos. Famílias que depressa se apressaram a integrar na aristocracia de linhagem, tanto por casamento como por compadrio político. E apesar do seu estatuto de plebeus, não se compadeceram mais das dificuldades da plebe-pé-descalça do que os seus colegas patrícios. A plebe viveu assim cinco séculos de ilusão de uma luta pela igualdade social. Para o final da República o nível de demagogia e aproveitamento desse conflito desencadeou décadas de guerras civis, até que surgiu vencedor Gaius Iulius Caeser Octavianus Augustus que acabou com a brincadeira republicana e deu a volta à coisa com um "L'Etat c'est moi!" muito mais subtil que o de Luís XIV. Foi de facto uma evolução do paradigma social algo comparável ao que aconteceu no século XIX como o novo-riquismo proporcionado pela revolução industrial. O príncipe italiano Di Lampedusa expôs a lógica subjacente de maneira brilhante na sua obra-prima O Leopardo (Il Gattopardo): "Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi!" (Se queremos que tudo fique na mesma é necessário que tudo mude!).
O que aprendemos hoje com os antigos? Iludam-se quanto quiserem com as falsas idolatrias e com as ideologias partidárias vãs e balofas que marcam o nosso espectro político da extrema esquerda à extrema direita. Por mais que tudo mude (entre todas as possíveis combinações de governo possíveis), tudo ficará sempre na mesma porque a ninguém interessa realmente que o paradigma do nacional porreirismo seja perturbado. Relembro que na votação na AR para o aumento dos valores não-justificados de financiamento das campanhas eleitorais apenas dois ou três deputados votaram contra. Em bom português: a m*da muda mas o cheiro é o mesmo. Os patrícios romanos sempre tinham algum sentido de estado e dever público; a nobreza medieval sempre era galante e honrada; a aristocracia da época moderna tinha o seu brilho, distinção e elegância; a burguesia saída da Revolução Industrial sempre começou por ser séria e comprometida. Agora isto!, esta degenerescência, este abastardamento que temos por classe dirigente? Isto é simplesmente, parafraseando Eça: "uma choldra ignóbil!".
Um caso curioso que ilustra esta ingenuidade lusa passou-se precisamente com esses Romanos - que bem dizia o pequeno gaulês, e com alguma razão, que eram loucos. Deu-se isto lá por volta dos últimos cinco séculos antes do nascimento de Cristo na cidade de Roma. Na época era Roma uma República governada por um punhado de aristocratas e queixava-se a plebe (não lhe faltando a razão) que expulsara o último Rei para nada, visto que do poder prometido nem o cheiro. Ora o descontentamento deu em divórcio unilateral (e acha o governo que é progressista) quando o Senado elegeu para cônsul um senhor de elevada estirpe e igualmente elevado nariz: Appius Claudius Inregillensis. O que é o fizeram esses sábios romanos confrontados com as atitudes desse tiranozito empertigado? Mataram-no? Protestaram nas ruas? Deitaram fogo à cidade? Nada disso! Fizeram o que ficou conhecido para a história como: secessio plebis. Ou seja, toda a plebe (a esmagadora maioria da cidade claro está) abandonou Roma e acampou num monte ali perto, deixando os aristocratas para se governarem a eles mesmos. De génio! Claro está que conseguiram o que queriam e esse ano de 494a.C. viu a criação da magistratura do Tribuno da Plebe, cuja eleição dependia não do Senado mas do Populusque Romanus.É que isto de querer comer e não haver quem produza, transporte, venda e confeccione o repasto é coisa que deve ter alterado os mais altos interesses do Estado. E nem quero imaginar a desdita dos pobres senadores, que tiveram que ouvir as Julias, as Claudias, as Fabias e as Valerias em ataques apopléticos quando perceberam que as lojas estavam todas fechadas!
Ora como em equipa que joga bem não se mexe (algo que o Sr. Queiroz devia ter percebido antes de substituir o Hugo Almeida no funesto jogo de Terça), a plebe voltou a utilizar a mesma receita um punhado de vezes mais nas centúrias seguintes. Quando a necessidade assim o obrigava, lá se empacotava tudo muito bem e se ia passar uns dias de descanso ao campo à espera que os senhores de toga capitulassem da sua arrogância. Famosos ficaram os gerados pela recusa do Senado das Leges Duodecim Tabularum (449 a.C.) da Lex Canuleia (445 a.C.) ou da Lex Hortensia (287 a.C.). Ora com o tempo a plebe foi ganhando poder em Roma, sendo-lhe ultimamente abertas todas as magistraturas, pontificados e o assento no Senado. E já os ouço: "Ahah! Então não foi ingenuidade nenhuma! Deu resultado. Vamos todos organizar uma deslocação de Lisboa para o Monte da Caparica e ficamos lá à espera que pelas janelas dos gabinetes do Terreiro do Paço entrem ares de bom-senso e o governo tenha uma epifania!"
A questão é que nada mudou realmente. A plebe ficou possibilitada de concorrer nas eleições aos cargos públicos, de facto. Mas quem tinha os milhares de sestércios necessários para subornos e organização de jogos para conseguir assegurar uma eleição? Os ricos! Plebeus, mas ricos. Famílias que depressa se apressaram a integrar na aristocracia de linhagem, tanto por casamento como por compadrio político. E apesar do seu estatuto de plebeus, não se compadeceram mais das dificuldades da plebe-pé-descalça do que os seus colegas patrícios. A plebe viveu assim cinco séculos de ilusão de uma luta pela igualdade social. Para o final da República o nível de demagogia e aproveitamento desse conflito desencadeou décadas de guerras civis, até que surgiu vencedor Gaius Iulius Caeser Octavianus Augustus que acabou com a brincadeira republicana e deu a volta à coisa com um "L'Etat c'est moi!" muito mais subtil que o de Luís XIV. Foi de facto uma evolução do paradigma social algo comparável ao que aconteceu no século XIX como o novo-riquismo proporcionado pela revolução industrial. O príncipe italiano Di Lampedusa expôs a lógica subjacente de maneira brilhante na sua obra-prima O Leopardo (Il Gattopardo): "Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi!" (Se queremos que tudo fique na mesma é necessário que tudo mude!).
O que aprendemos hoje com os antigos? Iludam-se quanto quiserem com as falsas idolatrias e com as ideologias partidárias vãs e balofas que marcam o nosso espectro político da extrema esquerda à extrema direita. Por mais que tudo mude (entre todas as possíveis combinações de governo possíveis), tudo ficará sempre na mesma porque a ninguém interessa realmente que o paradigma do nacional porreirismo seja perturbado. Relembro que na votação na AR para o aumento dos valores não-justificados de financiamento das campanhas eleitorais apenas dois ou três deputados votaram contra. Em bom português: a m*da muda mas o cheiro é o mesmo. Os patrícios romanos sempre tinham algum sentido de estado e dever público; a nobreza medieval sempre era galante e honrada; a aristocracia da época moderna tinha o seu brilho, distinção e elegância; a burguesia saída da Revolução Industrial sempre começou por ser séria e comprometida. Agora isto!, esta degenerescência, este abastardamento que temos por classe dirigente? Isto é simplesmente, parafraseando Eça: "uma choldra ignóbil!".
Imagem: The Secession of the People to the Mons Sacer, engraved by B.Barloccini, 1849 (engraving)- cortesia de Fotobank
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