Ele sempre há gente com uma descomunal lata! Disse Obama ontem ao Mundo a partir da Califórnia algo como:
"o fracasso da Zona Euro [deve-se] à ausência de regulação do sector da banca e ao atraso na resposta aos problemas que foram surgindo."
Isto vindo de alguém que lidera um país cujas políticas de desregulação da Administração Central e da Reserva Federal permitiram a bolha do mercado imobiliário e o crash dos mercados devido aos activos tóxicos da banca de investimento e que, consequentemente, há pouco mais de 3 anos mergulharam o Mundo numa crise económico-financeira. Isto vindo de alguém que há até bem poucos dias andava a contar as horas para o incumprimento do próprio país devido às desavenças politiqueiras no Senado e cujo atraso na resposta agravou a volatilidade dos mercados com consequências nefastas para a nossa própria crise dívida.
Não é que eu discorde da análise. Mas isto lançado assim, do topo do púlpito moral do laureado com o Nobel da Paz, que moral para falar tem pouca ou nenhuma (e paz de espírito também não, que está a ver a reeleição cada vez mais longe), isto, dizia, é coisa para me dar uma reacção alérgica de moderada a forte... Vou à procura dos anti-histamínicos.
Contradições, ambiguidades, paradoxos, hesitações, antinomias, incertezas, erros, equívocos, enganos... disto é feito o mundo que me rodeia assim como eu mesmo...no fundo, não passamos de acordes dissonantes numa monumental mas desarmoniosa sinfonia...aqui vão apenas algumas "notas" d'aquém e d'além minh'alma para ajudar ao todo...
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terça-feira, 27 de setembro de 2011
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
D'Além R.U.: Fog in the Channel. Continent cut off.
Uma coisa é certa: para o melhor e para o pior a Europa está a mudar. Já ninguém consegue entrever aquela Europa meia-real meia-sonhada dos anos 90, quando o optimismo que se seguiu à Reunificação Alemã alimentou tantos ideais e ambições. Certo é, também, que por terras de Sua Majestade Britânica nunca houve propriamente entusiasmo quanto ao projecto europeu. Menos certos serão sempre os sinais que se tentarem ler nas declarações dos políticos. Mas, por solidariedade, pudor ou hipocrisia, não seria expectável no meio político britânico que um PM se dirigisse à UE nestes termos. Parece que os fence sitters britânicos estão finalmente a pender para um dos lados. E não é o de mais integração europeia. E quando pensamos no lodaçal em que o Velho Continente se tornou, quem os pode criticar?
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
D'Além Israel e Palestina: Soluções ou falta delas
Vem o presente a propósito de um debate entre as soluções de Estado Único e de Dois Estados que comecei com o Luís Lavoura devido a um post seu no Speaker's Corner. Espicaçou-me o interesse que sempre tive pela problemática Israelo-Palestiniana e não resisti a ir relembrar e reaprender o que já soubera sobre o tema e procurar também alguns dados novos para sustentar a minha visão dele. Aí fica o resultado dessas minhas deambulações mentais, para quem se interessar por questões do Médio Oriente.
Notas Históricas: O Levante sempre foi uma região de acesas disputas territoriais e políticas, inflamadas pelo cunho religioso que nunca abandonou a discussão. No contexto dos alinhamentos políticos e da disseminação do nacionalismo antes e durante a I Guerra Mundial, surge a Declaração de Balfour de 1917, que primeiro propõe um Estado Judaico. Com o protectorado europeu do Médio Oriente na primeira metade do século XX, o movimento zionista fomenta a colonização judaica da Palestina. Após o final da II Grande Guerra, começa o período de descolonização do Médio Oriente. O Protectorado Britânico no Levante concede a independência à Jordânia em 1946 e prepara uma solução de dois Estados para a Palestina, que é aprovada na ONU, em 1947, com a oposição em bloco dos países árabes. O clima é de guerra-civil entre 1947-1948 e, quando Ben Gurion decreta a independência do Estado Judaico de Israel em '48, provoca a declaração de guerra dos países da Liga Árabe (fundada em '45), começando a 1ª Guerra Israelo-Árabe. Enquanto o Estado Palestiniano contava com uma homogeneidade cultural (99% de árabes), em Israel a população judaica constituía apenas 55% do total. As hostilidades terminam com o Armistício de 1949 e a expansão do estado judaico. Em '67, na Guerra dos 6 Dias Israel ganha ainda o controlo da Faixa de Gaza, da Península do Sinai, do Banco Ocidental, dos Montes Golã e de Jerusalém Oriental. A Guerra do Yom Kuppur em '73 não traz alterações territoriais, mas abriu portas para os Acordos de Camp David de '78 e para o tratado de paz entre Israel e o Egipto em '79 com a retirada israelita do Sinai. Desde essa data que as fronteiras israelitas não se alteram oficialmente, embora, na prática, a faixa de Gaza e o Banco Ocidental se encontrem sob o mandato da Autoridade Nacional Palestiniana desde os Acordos de Oslo de '94. Neste ano da Graça de 2011, 68 anos após o início do conflito Israelo-Palestianiano ainda não se encontrou uma solução que lhe ponha cobro.
Notas Socio-Culturais: Desde a conquista de Israel por Pompeu em 64 A.C. que o povo judaico não se consubstanciava num Estado. Mas, desde essa longínqua época, os Judeus mantiveram uma integridade social e uma segregação dos demais povos (voluntária ou forçada) inegável. Durante 2002 anos, o povo Judeu não se traduziu numa Nação, País ou qualquer outra entidade territorial identificável. Pelo contrário, durante estes dois milénios a diáspora judaica encontrou a sua definição e identidade na religião, na cultura e na sociedade. Convém, creio eu, lembrar que o conceito de Estado e Nação como o temos hoje é fruto da construção da mentalidade ocidental hodierna e não encontra muitas vezes eco na crua realidade de outras latitudes. Embora na Europa estejamos cada vez menos agarrados à noção de povo, raça e etnia e se vá progredindo para o multi-culturalismo, esta perspectiva - que pomposamente adjectivamos de tolerante, civilizada e moderna - é fruto das condicionantes específicas do continente europeu das últimas décadas. Senão, relembre-se o papel do nacionalismo e do princípio da autodeterminação dos povos ainda na I Guerra Mundial e no colapso de Impérios multi-culturais como o Austro-Húngaro ou o Otomano. E não é preciso ir tão longe, porque foi ainda na década de 90 que se verificaram as independências baseadas em conceitos nacionalistas dos povos dos Balcãs e do Báltico. Se bem que aqui já com inovações surpreendentes no solucionar de disputas étnicas e religiosas, cujo paradigma se encontra na organização institucional da actual Bósnia-Herzegovina. Não obstante, parece-me inegável que a identidade dos judeus israelitas se prende primeiro com a religião e cultura judaicas e só depois com a cidadania israelita. De resto, do lado árabe não encontramos assim tão grandes diferenças nesta problemática. Embora o nacionalismo árabe tenha despontado pelo incitamento do Reino Unido e da França na I Grande Guerra, a identidade Árabe é ainda hoje muito forte e encontra tradução prática na Liga Árabe. Assim como também é forte a identidade muçulmana, que se reflecte, por exemplo, na polémica noção de Dois Estados na Índia.
Notas Demográficas: A população actual do Estado de Israel (como saído dos Acordos de Oslo) é 75,3% Judaica e 20,5% Árabe (dados de 2011). Desde 2005, com a retirada dos colonatos israelitas da Faixa de Gaza, que esse território tem uma população exclusivamente Árabe. Já na Cisjordânia, ou Banco Ocidental, embora a população seja maioritariamente Árabe, existem colonatos judeus (não consegui arranjar informação quantitativa).
As Soluções: Desde a pretensa solução britânica de '47, que desencadeou o conflito, que inúmeras soluções têm sido propostas. Há que entender que as soluções têm de visar vários aspectos em simultâneo: mútuo reconhecimento, divisão territorial, acordos de segurança, desmilitarização, estatuto dos refugiados, estatuto de cidadania, organização institucional do(s) estado(s), entre outros. E além das grandes temáticas, existem os casos particulares como o de Jerusalém Oriental. É todo um conjunto de variáveis que se interligam entre si e tecem toda uma trama que ainda ninguém conseguiu deslindar convenientemente. Entre as soluções mais famosas encontramos o Plano Saudita ou o Plano Clinton. Como é lógico, não me é possível fazer aqui uma abordagem exaustiva das diversas perspectivas do problema e possíveis resoluções. Focar-me-ei, então, naquilo que me desencadeou esta publicação: a problemática da divisão territorial (ou ausência dela).
A Questão Territorial: Só quanto a este enfoque existe toda uma miríade de alternativas. Sumariamente: (1) uma Nação, uma Estado; (2) duas Nações, um Estado; (3) dois Estados, uma Confederação; (4) dois Povos, dois Estados; (5) a solução dos três Estados e porventura existirão outras mais. O Luís Lavoura (LL) defendeu a solução do Estado Único. Eu defendo a solução de Dois Estados, embora também não descarte os híbridos Estado bi-nacional e Federação.
O Estado Único: "A solução para o problema dessa terra não é dois Estados - é um só Estado, multi-étnico e não discriminador." "Para que se obtivesse aquilo que eu proponho, bastaria que Israel abandonasse o seu ideal sionista e passasse a ver-se a si mesmo como o país de todas as pessoas que vivem no território por si controlado."(LL) Em conformidade com o que expus acima nas Notas Socio-Culturais, é minha convicção que esta ideia do Luís é impraticável. Os judeus agarram-se a esse ideal sionista, porque foi essa a única fonte de coesão a que tiveram enquanto Povo durante dois milénios. Embora hoje as mentalidades mudem com elevada rapidez, não creio que seja possível esperar dos judeus israelitas este abandono da tradição que lhes está tão enraizado. Este conceito de identidade baseado na etnia e não na cidadania é perceptível, por exemplo, nesta sondagem de 2010 sobre atitudes discriminatórias para com os Árabes israelitas, em que 44% dos Judeus israelitas as apoiam. Mais reveladores serão ainda os resultado de uma outra sondagem de 2005 em que 66% dos israelitas e 63% dos palestinianos defendiam que Israel deveria ser o Estado do povo Judaico e a Palestina o Estado do povo Árabe. E de notar de que o apoio a esta concepção pela população Árabe de Israel atingiu os 63% (mesmo tendo esses Árabes noção de que ficariam deslocados e possivelmente teriam de emigrar). Ou seja, como também já referi acima, não são apenas os Judeus que privilegiam a etnia como fonte de identidade, os Árabes partilham dessa opinião.
O apoio à criação de um Estado único cresceu na população palestiniana devido à consciencialização da população pelos media de que, se se criasse um Estado único agora, a população Árabe seria maioritária. E é precisamente pela mesma razão que os Judeus nunca aceitarão essa proposta. Não obstante a idealização de LL sobre Estado multi-étnico, todas essas concepções finamente acabadas da mentalidade ocidental não encontram eco nos habitantes do Levante. A identidade é acima de tudo étnica e uma solução que pretenda ignorar este aspecto fulcral da realidade, é uma solução que não soluciona nada, porque não se baseia em premissas reais.
Os Dois Estados: À semelhança da hipótese anterior, a solução de dois Estados é, nos dias de hoje, uma das mais populares. A oficialização dos limites territoriais dos Acordos de Oslo permitiria a maior concordância possível entre o factor étnico e a cidadania. Contudo, não é desprezável o facto de 1/5 da população israelita ser Árabe e de existirem colonatos judeus na Cisjordânia. Mas esta solução territorial desencadeia muitos problemas "logísticos": como tratar as minorias, os refugiados, os problemas de posse de terras, o eterno problema de Jerusalém, etc... Todavia, nesta sondagem de 2009 ficamos a saber que 59% dos israelitas e 63% dos palestinianos apoiam a solução dos dois Estados. Mais uma vez se revela o peso da concepção étnica da sociedade, preferindo estes povos uma solução que é, em última instância, segregatória.
Na minha opinião, será mais fácil contornar os problemas de qualquer acordo final (porque não há solução perfeita) com o apoio das populações. E no Médio Oriente ninguém quer saber de multi-culturalismo e "tretas ocidentais" afins. Esse é um luxo nosso, que temos uma base de segurança muito maior na nossa existência e identidade e, como tal, podemo-nos dar ao luxo de ser tolerantes. (Para entender isto leia-se sobre a Pirâmide das Necessidades de Maslow).
Dois Povos um Estado: Eu não sou, por princípio, contra as soluções que, embora prevejam a criação de um Estado único, salvaguardam a independência dos povos Judeu e Árabe, procurando que estes possam coexistir. Contudo, embora sejam soluções teóricas elegantes, a sua dificuldade encontra-se na concretização prática dessa autonomia dos Povos. Ademais, é precisamente isso que sentem as populações locais. Numa sondagem de 2010, quando confrontados com a escolha entre dois Estados, um Estado bi-nacional ou uma Confederação: 71% dos israelitas e 57% dos palestinianos apoiariam a solução de dois Estados; apenas 24% dos israelitas e 29% dos palestinianos apoiariam o Estado bi-nacional e uma confederação recolheria o apoio de 30% dos israelitas e 26% dos palestinianos.
Em suma, Luís, esta é para mim a atitude condescendente de um Europeu que se recusa a olhar para a realidade das sociedades judaica e árabe tal e qual como elas são: fundamentalmente diferentes da nossa.
Notas Históricas: O Levante sempre foi uma região de acesas disputas territoriais e políticas, inflamadas pelo cunho religioso que nunca abandonou a discussão. No contexto dos alinhamentos políticos e da disseminação do nacionalismo antes e durante a I Guerra Mundial, surge a Declaração de Balfour de 1917, que primeiro propõe um Estado Judaico. Com o protectorado europeu do Médio Oriente na primeira metade do século XX, o movimento zionista fomenta a colonização judaica da Palestina. Após o final da II Grande Guerra, começa o período de descolonização do Médio Oriente. O Protectorado Britânico no Levante concede a independência à Jordânia em 1946 e prepara uma solução de dois Estados para a Palestina, que é aprovada na ONU, em 1947, com a oposição em bloco dos países árabes. O clima é de guerra-civil entre 1947-1948 e, quando Ben Gurion decreta a independência do Estado Judaico de Israel em '48, provoca a declaração de guerra dos países da Liga Árabe (fundada em '45), começando a 1ª Guerra Israelo-Árabe. Enquanto o Estado Palestiniano contava com uma homogeneidade cultural (99% de árabes), em Israel a população judaica constituía apenas 55% do total. As hostilidades terminam com o Armistício de 1949 e a expansão do estado judaico. Em '67, na Guerra dos 6 Dias Israel ganha ainda o controlo da Faixa de Gaza, da Península do Sinai, do Banco Ocidental, dos Montes Golã e de Jerusalém Oriental. A Guerra do Yom Kuppur em '73 não traz alterações territoriais, mas abriu portas para os Acordos de Camp David de '78 e para o tratado de paz entre Israel e o Egipto em '79 com a retirada israelita do Sinai. Desde essa data que as fronteiras israelitas não se alteram oficialmente, embora, na prática, a faixa de Gaza e o Banco Ocidental se encontrem sob o mandato da Autoridade Nacional Palestiniana desde os Acordos de Oslo de '94. Neste ano da Graça de 2011, 68 anos após o início do conflito Israelo-Palestianiano ainda não se encontrou uma solução que lhe ponha cobro.
Notas Socio-Culturais: Desde a conquista de Israel por Pompeu em 64 A.C. que o povo judaico não se consubstanciava num Estado. Mas, desde essa longínqua época, os Judeus mantiveram uma integridade social e uma segregação dos demais povos (voluntária ou forçada) inegável. Durante 2002 anos, o povo Judeu não se traduziu numa Nação, País ou qualquer outra entidade territorial identificável. Pelo contrário, durante estes dois milénios a diáspora judaica encontrou a sua definição e identidade na religião, na cultura e na sociedade. Convém, creio eu, lembrar que o conceito de Estado e Nação como o temos hoje é fruto da construção da mentalidade ocidental hodierna e não encontra muitas vezes eco na crua realidade de outras latitudes. Embora na Europa estejamos cada vez menos agarrados à noção de povo, raça e etnia e se vá progredindo para o multi-culturalismo, esta perspectiva - que pomposamente adjectivamos de tolerante, civilizada e moderna - é fruto das condicionantes específicas do continente europeu das últimas décadas. Senão, relembre-se o papel do nacionalismo e do princípio da autodeterminação dos povos ainda na I Guerra Mundial e no colapso de Impérios multi-culturais como o Austro-Húngaro ou o Otomano. E não é preciso ir tão longe, porque foi ainda na década de 90 que se verificaram as independências baseadas em conceitos nacionalistas dos povos dos Balcãs e do Báltico. Se bem que aqui já com inovações surpreendentes no solucionar de disputas étnicas e religiosas, cujo paradigma se encontra na organização institucional da actual Bósnia-Herzegovina. Não obstante, parece-me inegável que a identidade dos judeus israelitas se prende primeiro com a religião e cultura judaicas e só depois com a cidadania israelita. De resto, do lado árabe não encontramos assim tão grandes diferenças nesta problemática. Embora o nacionalismo árabe tenha despontado pelo incitamento do Reino Unido e da França na I Grande Guerra, a identidade Árabe é ainda hoje muito forte e encontra tradução prática na Liga Árabe. Assim como também é forte a identidade muçulmana, que se reflecte, por exemplo, na polémica noção de Dois Estados na Índia.
Notas Demográficas: A população actual do Estado de Israel (como saído dos Acordos de Oslo) é 75,3% Judaica e 20,5% Árabe (dados de 2011). Desde 2005, com a retirada dos colonatos israelitas da Faixa de Gaza, que esse território tem uma população exclusivamente Árabe. Já na Cisjordânia, ou Banco Ocidental, embora a população seja maioritariamente Árabe, existem colonatos judeus (não consegui arranjar informação quantitativa).
As Soluções: Desde a pretensa solução britânica de '47, que desencadeou o conflito, que inúmeras soluções têm sido propostas. Há que entender que as soluções têm de visar vários aspectos em simultâneo: mútuo reconhecimento, divisão territorial, acordos de segurança, desmilitarização, estatuto dos refugiados, estatuto de cidadania, organização institucional do(s) estado(s), entre outros. E além das grandes temáticas, existem os casos particulares como o de Jerusalém Oriental. É todo um conjunto de variáveis que se interligam entre si e tecem toda uma trama que ainda ninguém conseguiu deslindar convenientemente. Entre as soluções mais famosas encontramos o Plano Saudita ou o Plano Clinton. Como é lógico, não me é possível fazer aqui uma abordagem exaustiva das diversas perspectivas do problema e possíveis resoluções. Focar-me-ei, então, naquilo que me desencadeou esta publicação: a problemática da divisão territorial (ou ausência dela).
A Questão Territorial: Só quanto a este enfoque existe toda uma miríade de alternativas. Sumariamente: (1) uma Nação, uma Estado; (2) duas Nações, um Estado; (3) dois Estados, uma Confederação; (4) dois Povos, dois Estados; (5) a solução dos três Estados e porventura existirão outras mais. O Luís Lavoura (LL) defendeu a solução do Estado Único. Eu defendo a solução de Dois Estados, embora também não descarte os híbridos Estado bi-nacional e Federação.
O Estado Único: "A solução para o problema dessa terra não é dois Estados - é um só Estado, multi-étnico e não discriminador." "Para que se obtivesse aquilo que eu proponho, bastaria que Israel abandonasse o seu ideal sionista e passasse a ver-se a si mesmo como o país de todas as pessoas que vivem no território por si controlado."(LL) Em conformidade com o que expus acima nas Notas Socio-Culturais, é minha convicção que esta ideia do Luís é impraticável. Os judeus agarram-se a esse ideal sionista, porque foi essa a única fonte de coesão a que tiveram enquanto Povo durante dois milénios. Embora hoje as mentalidades mudem com elevada rapidez, não creio que seja possível esperar dos judeus israelitas este abandono da tradição que lhes está tão enraizado. Este conceito de identidade baseado na etnia e não na cidadania é perceptível, por exemplo, nesta sondagem de 2010 sobre atitudes discriminatórias para com os Árabes israelitas, em que 44% dos Judeus israelitas as apoiam. Mais reveladores serão ainda os resultado de uma outra sondagem de 2005 em que 66% dos israelitas e 63% dos palestinianos defendiam que Israel deveria ser o Estado do povo Judaico e a Palestina o Estado do povo Árabe. E de notar de que o apoio a esta concepção pela população Árabe de Israel atingiu os 63% (mesmo tendo esses Árabes noção de que ficariam deslocados e possivelmente teriam de emigrar). Ou seja, como também já referi acima, não são apenas os Judeus que privilegiam a etnia como fonte de identidade, os Árabes partilham dessa opinião.
O apoio à criação de um Estado único cresceu na população palestiniana devido à consciencialização da população pelos media de que, se se criasse um Estado único agora, a população Árabe seria maioritária. E é precisamente pela mesma razão que os Judeus nunca aceitarão essa proposta. Não obstante a idealização de LL sobre Estado multi-étnico, todas essas concepções finamente acabadas da mentalidade ocidental não encontram eco nos habitantes do Levante. A identidade é acima de tudo étnica e uma solução que pretenda ignorar este aspecto fulcral da realidade, é uma solução que não soluciona nada, porque não se baseia em premissas reais.
Os Dois Estados: À semelhança da hipótese anterior, a solução de dois Estados é, nos dias de hoje, uma das mais populares. A oficialização dos limites territoriais dos Acordos de Oslo permitiria a maior concordância possível entre o factor étnico e a cidadania. Contudo, não é desprezável o facto de 1/5 da população israelita ser Árabe e de existirem colonatos judeus na Cisjordânia. Mas esta solução territorial desencadeia muitos problemas "logísticos": como tratar as minorias, os refugiados, os problemas de posse de terras, o eterno problema de Jerusalém, etc... Todavia, nesta sondagem de 2009 ficamos a saber que 59% dos israelitas e 63% dos palestinianos apoiam a solução dos dois Estados. Mais uma vez se revela o peso da concepção étnica da sociedade, preferindo estes povos uma solução que é, em última instância, segregatória.
Na minha opinião, será mais fácil contornar os problemas de qualquer acordo final (porque não há solução perfeita) com o apoio das populações. E no Médio Oriente ninguém quer saber de multi-culturalismo e "tretas ocidentais" afins. Esse é um luxo nosso, que temos uma base de segurança muito maior na nossa existência e identidade e, como tal, podemo-nos dar ao luxo de ser tolerantes. (Para entender isto leia-se sobre a Pirâmide das Necessidades de Maslow).
Dois Povos um Estado: Eu não sou, por princípio, contra as soluções que, embora prevejam a criação de um Estado único, salvaguardam a independência dos povos Judeu e Árabe, procurando que estes possam coexistir. Contudo, embora sejam soluções teóricas elegantes, a sua dificuldade encontra-se na concretização prática dessa autonomia dos Povos. Ademais, é precisamente isso que sentem as populações locais. Numa sondagem de 2010, quando confrontados com a escolha entre dois Estados, um Estado bi-nacional ou uma Confederação: 71% dos israelitas e 57% dos palestinianos apoiariam a solução de dois Estados; apenas 24% dos israelitas e 29% dos palestinianos apoiariam o Estado bi-nacional e uma confederação recolheria o apoio de 30% dos israelitas e 26% dos palestinianos.
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"A "solução" de dois Estados, que não é solução nenhuma na medida em que em Israel há árabes a viver no meio dos judeus e na Cisjordânia há judeus a viver no meio dos árabes, apenas se destina a manter o ideal sionista de Israel, ou seja, o ideal de Israel ser uma pátria quase exclusivamente para os judeus. Ou seja, apenas se destina a manter um ideal próprio do século 19 e que está totalmente desfasado, tanto da realidade no terreno, como das ideologias modernas." (LL)Em suma, Luís, esta é para mim a atitude condescendente de um Europeu que se recusa a olhar para a realidade das sociedades judaica e árabe tal e qual como elas são: fundamentalmente diferentes da nossa.
domingo, 11 de setembro de 2011
D'Além Economia: Guerra de Divisas II
Na sequência do que aqui publiquei há uns dias em Guerras de Divisas, chamo agora a atenção para uma entrevista interessantíssima de James Dines no Expresso on-line. Deixo aqui alguns excertos para aguçar a curiosidade.
"Os Estados Unidos têm cortado as ligações entre o seu papel-moeda e o ouro há mais de um século, como referi em "Goldbug". Têm-no feito passo a passo, com o resultado de que hoje todas as divisas flutuam sem qualquer ligação a qualquer valor tangível. Deste modo, flutuam em função do montante de papel que cada país imprime."
"É pouco provável que os países parem de dar à manivela da impressora, ou que o façam exatamente ao mesmo tempo e ao mesmo ritmo. Como todas flutuam umas contra as outras, a instabilidade arrisca um crash histórico algures no futuro."
"Acabamos por ficar maravilhados com o facto de que o Japão imprime ienes para comprar dólares sem se aperceber que é um castelo de cartas ilusório e vulnerável a uma ventania."
"Foi a Conferência de Génova em 1922 que decidiu duplicar a oferta de moeda de modo a poder pagar-se o custo da 1ª Guerra Mundial, como refiro na minha obra "Goldbugs". Foi esse mar de papel que desencadeou os designados "estrondosos anos 20". A inevitável deflação imediatamente a seguir a 1929 foi normal e natural - eliminando os excessos de papel impresso."
"Nem toda a gente percebe que a palavra inflação quer dizer aumento da oferta de moeda, e não é sinónimo de preços mais altos. As dores da deflação já estão a ser sentidas nos EUA, especialmente nos salários e na ausência de criação de emprego, mas também se sente à escala mundial. A hiperimpressão de dólares está a fazer o seu caminho para as commodities e esse aumento de preços está desencadeando violência a revoluções numa série de países pelo mundo fora."
"Se as coisas não mudarem, o mundo está a ir direitinho para o que chamo de "segunda grande depressão", onde a ânsia de ganhos financeiros será extirpada e substituída pela sobrevivência do capital."
"Os Estados Unidos têm cortado as ligações entre o seu papel-moeda e o ouro há mais de um século, como referi em "Goldbug". Têm-no feito passo a passo, com o resultado de que hoje todas as divisas flutuam sem qualquer ligação a qualquer valor tangível. Deste modo, flutuam em função do montante de papel que cada país imprime."
"É pouco provável que os países parem de dar à manivela da impressora, ou que o façam exatamente ao mesmo tempo e ao mesmo ritmo. Como todas flutuam umas contra as outras, a instabilidade arrisca um crash histórico algures no futuro."
"Acabamos por ficar maravilhados com o facto de que o Japão imprime ienes para comprar dólares sem se aperceber que é um castelo de cartas ilusório e vulnerável a uma ventania."
"Foi a Conferência de Génova em 1922 que decidiu duplicar a oferta de moeda de modo a poder pagar-se o custo da 1ª Guerra Mundial, como refiro na minha obra "Goldbugs". Foi esse mar de papel que desencadeou os designados "estrondosos anos 20". A inevitável deflação imediatamente a seguir a 1929 foi normal e natural - eliminando os excessos de papel impresso."
"Nem toda a gente percebe que a palavra inflação quer dizer aumento da oferta de moeda, e não é sinónimo de preços mais altos. As dores da deflação já estão a ser sentidas nos EUA, especialmente nos salários e na ausência de criação de emprego, mas também se sente à escala mundial. A hiperimpressão de dólares está a fazer o seu caminho para as commodities e esse aumento de preços está desencadeando violência a revoluções numa série de países pelo mundo fora."
"Se as coisas não mudarem, o mundo está a ir direitinho para o que chamo de "segunda grande depressão", onde a ânsia de ganhos financeiros será extirpada e substituída pela sobrevivência do capital."
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
D'Além Economia Globalizada: Guerras de Divisas
Um artigo (Um primeiro tiro na Guerra de Divisas) na secção de Economia do Expresso on-line despoletou-me a curiosidade e lá fui, no meu papel de leigo no mundo da finança, dedicar-me a essa nobre arte de aprender. Os desafios de uma economia globalizada são sem dúvida extraordinários. Ademais, quando ajuntamos à equação o paradigma da situação político-social da época moderna, o nível de complexidade gerado é assombroso. Em boa verdade, o que já não existe nestes nossos tempos é precisamente um paradigma, quanto mais um arquétipo ou um ideal. Vivemos cada vez mais numa sociedade pautada, a todos os níveis, pela mudança cada vez mais veloz, pela evolução cada vez mais rápida da realidade. Para os nossos pobres cérebros (cujas bases arquitecturais se formaram à centenas de milhares de anos atrás), este novo padrão da sociedade contemporânea, que é, por assim dizer, a falta desse mesmo padrão, apenas poderá ser percepcionado como instabilidade e volatilidade.
Ora se há domínio da sociedade moderna que se habitou desde o século XVII a viver sem a estabilidade que o comum dos mortais almeja é a Finança. Os mercados são por definição voláteis e imprevisíveis. Mas até mesmo os desafios desta nova era pós-11-de-Setembro se estão a revelar como um pouco mais do que os mercados financeiros conseguem digerir. A globalização da Economia iniciada pelos portugueses nessa longínqua centúria de Quinhentos, em que o anos ainda eram da Graça do Senhor, apenas se consubstanciou verdadeiramente no pós-Segunda-Grande-Guerra. Ou seja, quando o mundo não-Europeu-ou-Americano foi evoluindo de um papel de subserviência ou clientelismo económico para o de um parceiro de facto. É, em suma, uma realidade recente.
O ovo de Colombo desta nova realidade é que perturbações num dos elementos do sistema se irão repercutir gravemente no sistema como um todo, afectando o seu normal funcionamento. Até há bem poucos anos o Mundo vivia na dicotomia Mundo Desenvolvido e Mundo Subdesenvolvido. O estalar do verniz do modelo de Estado Social dos desenvolvidos países Europeus em concomitância com a surgimento das economias "em vias de desenvolvimento" (leia-se BRICS) apresenta desafios aos modelos e convicções estabelecidas nos mercados financeiros. Os capitais estão a fugir do Euro e a procurar refúgios. Os investidores deixaram de considerar a zona-Euro (um dos três grandes motores económicos do mundo) como um local seguro para investir o seu dinheiro e estão a transferi-lo para outros activos. Daí os crashes bolsistas na Europa (que acabam por arrastar e contagiar as demais praças, lá está a globalização outra vez) e a desvalorização da nossa divisa.
E para onde vai o dinheiro? O destino é um de dois: para os demais activos convencionais (entre os quais costumavam estar os europeus), leia-se ouro, EUA, Japão, Suíça, Dinamarca, Noruega e Suécia; ou para os considerados mais arriscados, mas ainda assim preferíveis ao lodaçal que se transformou o Velho Mundo, países em vias de desenvolvimento, sempre ávidos de investimento. A economia mundial não cresce a bom crescer no Mundo Desenvolvido desde a época áurea dos anos 90. O arrefecimento do comércio mundial, que nem os à-primeira-vista-espetaculares crescimentos do PIB de países em desenvolvimento parecem já conseguir contrapor, está a dificultar a retomada económica tanto na já fragilizada zona-Euro, como nos EUA e demais países Ocidentais.
Para estes países (EUA, Japão, Suíça, Dinamarca, Noruega e Suécia) a fuga de capitais da zona-Euro para os seus países está a afigurar-se como um entrave ao desenvolvimento. Como é que a entrada de capital num país pode refrear o seu crescimento económico? Parece um non sequitur, mas não é. A transferência de capitais para fora da zona-Euro implica que esses capitais vão passar para divisas diferentes, ou seja, na prática implica que se está a vender muitos euros para se comprarem dólares, yens, francos suíços e coroas nórdicas. Ora das leis da oferta e da procura que até um leigo como eu conhece, o mercado tem tendencialmente evoluído no sentido de desvalorizar o euro e valorizar as demais divisas.
O problema para os países Ocidentais fora da zona-Euro é que esta mesma zona é (ainda) um dos maiores mercados da Economia globalizada e praceiro comercial major de todas essas nações. Ora num contexto de crise económica generalizada interessa a toda a gente corrigir o equilíbrio da balança comercial aumentando as exportações. E é precisamente aqui que a valorização dessas divisas entrava o crescimento dessas economias: encarece-lhes as exportações. Com as taxas de juro mantidas a níveis baixíssimos e a margem de manobra fiscal praticamente esgotada nos países desenvolvidos, não restam muito mais opções para intervir no mercado de capitais do que as correcções artificiais de câmbio de moeda.
Situação semelhante vivem os países em vias de desenvolvimento: como Turquia, Rússia ou Brasil. A valorização das moedas permite um crescimento mais moderado da economia de consumo interna mas pode minar por completo o crescimento económico ao retirar competitividade às exportações. Sobre como esses países estão a lidar com a situação deixo-vos um peça informativa do Financial Times (daquelas que não se encontram nos telejornais de cá): link. A actuação faz-se sempre em mecanismos com efeitos indirectos como as taxas de juro, mas, como referi acima começa a escassear o espaço de manobra. São as acções directas sobre os câmbios de moeda, sem apelo nem agravo dos mercados, que se apelidam de actos de guerra de divisa.
Abriu-se a excepção no início deste ano com os acontecimentos catastróficos ocorridos no Japão. Houve naturalmente um gigantesco fluxo de capitais para o país no sentido de encetar a reconstrução. Ou seja, houve muita gente a comprar yens, sobrevalorizando repentina e dramaticamente o yen e ameaçando asfixiar a economia exportadora japonesa, prenunciando uma grave recessão económica. Sob a concertação da Reserva Federal Norte-Americana lá houve uma venda gigantesca dos yens em reserva nos principais Bancos Centrais, de forma a aliviar o mercado. Contudo a pressão sobre o yen recomeçou devido à fuga de capitais da Europa (à laia de exemplo: 500 mil milhões de euros só para os EUA, só nos últimos 6 meses).
Neste contexto, surge então a situação noticiada pelo Expresso no artigo supra-mencionado. O Banco Central Suíço (SNB) decidiu de surpresa impor um tecto à valorização do franco suíço e anunciou que se recusaria a transaccionar o câmbio do franco suíço acima dos 0,83€ por cada franco, ou abaixo dos 1,20FrS por cada euro. O franco suíço valorizou mais de 30% face ao euro nos últimos dois anos. Especula-se se será o primeiro movimento de um Guerra de Divisas, pois facilmente este tipo de decisões unilaterais e sem concertação internacional desencadeiam espirais de respostas que agravam o problema inicial em vez de o resolverem. Como o expôs um analista da HSBC ao Financial Times:
"Actions like this simply push the problem elsewhere (...) and it threatens a situation where every central bank is trying to weaken its currency"
A Reserva Federal aliviou os ânimos admitindo que a situação da Suíça era sui generis, devido à sua posição geo-estratégica bem no seio da Europa. E de facto os dados do crescimento do PIB suíço para este ano já foram revistos em cerca de metade dos 1,9% inicialmente previstos para 0,8%. Ademais, o SNB já perdeu mais de 30 mil milhões no valor dos seus activos só em 2010, pois a maioria dos seus investimentos são em euros e dolares, que perderam valor face ao franco suíço.
Receia-se que outros países cujas divisas se têm valorizado (Japão e Brasil) possam vir a tomar atitudes do género na tentativa de evitarem a deflação no mercado interno e a perda de competitividade no mercado externo. Afastados para já da contenda das divisas parece estar o par EUA/China, cuja relação de amor-ódio tanta tinta fez correr em finais do ano passado. Agradeçamos à globalização, que não é puramente económica, mas também social: os novos hábitos de consumo da população chinesa têm inflacionado o mercado e impedido a desvalorização do Renminbi (ou Yuan).
Quem não se pode queixar da sua valorização nos mercados é o tradicional refúgio não-divisa: o ouro. Mas vendo a onça acima dos 1800 dólares, algo me diz que quem se vai queixar são os investidores quando a bolha aurífera rebentar. As correrias desenfreadas nos mercados parece-me a mim que nunca são boas. Também as tulipas já valeram mais que o ouro e vejam lá agora.
Ora se há domínio da sociedade moderna que se habitou desde o século XVII a viver sem a estabilidade que o comum dos mortais almeja é a Finança. Os mercados são por definição voláteis e imprevisíveis. Mas até mesmo os desafios desta nova era pós-11-de-Setembro se estão a revelar como um pouco mais do que os mercados financeiros conseguem digerir. A globalização da Economia iniciada pelos portugueses nessa longínqua centúria de Quinhentos, em que o anos ainda eram da Graça do Senhor, apenas se consubstanciou verdadeiramente no pós-Segunda-Grande-Guerra. Ou seja, quando o mundo não-Europeu-ou-Americano foi evoluindo de um papel de subserviência ou clientelismo económico para o de um parceiro de facto. É, em suma, uma realidade recente.
O ovo de Colombo desta nova realidade é que perturbações num dos elementos do sistema se irão repercutir gravemente no sistema como um todo, afectando o seu normal funcionamento. Até há bem poucos anos o Mundo vivia na dicotomia Mundo Desenvolvido e Mundo Subdesenvolvido. O estalar do verniz do modelo de Estado Social dos desenvolvidos países Europeus em concomitância com a surgimento das economias "em vias de desenvolvimento" (leia-se BRICS) apresenta desafios aos modelos e convicções estabelecidas nos mercados financeiros. Os capitais estão a fugir do Euro e a procurar refúgios. Os investidores deixaram de considerar a zona-Euro (um dos três grandes motores económicos do mundo) como um local seguro para investir o seu dinheiro e estão a transferi-lo para outros activos. Daí os crashes bolsistas na Europa (que acabam por arrastar e contagiar as demais praças, lá está a globalização outra vez) e a desvalorização da nossa divisa.
E para onde vai o dinheiro? O destino é um de dois: para os demais activos convencionais (entre os quais costumavam estar os europeus), leia-se ouro, EUA, Japão, Suíça, Dinamarca, Noruega e Suécia; ou para os considerados mais arriscados, mas ainda assim preferíveis ao lodaçal que se transformou o Velho Mundo, países em vias de desenvolvimento, sempre ávidos de investimento. A economia mundial não cresce a bom crescer no Mundo Desenvolvido desde a época áurea dos anos 90. O arrefecimento do comércio mundial, que nem os à-primeira-vista-espetaculares crescimentos do PIB de países em desenvolvimento parecem já conseguir contrapor, está a dificultar a retomada económica tanto na já fragilizada zona-Euro, como nos EUA e demais países Ocidentais.
Para estes países (EUA, Japão, Suíça, Dinamarca, Noruega e Suécia) a fuga de capitais da zona-Euro para os seus países está a afigurar-se como um entrave ao desenvolvimento. Como é que a entrada de capital num país pode refrear o seu crescimento económico? Parece um non sequitur, mas não é. A transferência de capitais para fora da zona-Euro implica que esses capitais vão passar para divisas diferentes, ou seja, na prática implica que se está a vender muitos euros para se comprarem dólares, yens, francos suíços e coroas nórdicas. Ora das leis da oferta e da procura que até um leigo como eu conhece, o mercado tem tendencialmente evoluído no sentido de desvalorizar o euro e valorizar as demais divisas.
O problema para os países Ocidentais fora da zona-Euro é que esta mesma zona é (ainda) um dos maiores mercados da Economia globalizada e praceiro comercial major de todas essas nações. Ora num contexto de crise económica generalizada interessa a toda a gente corrigir o equilíbrio da balança comercial aumentando as exportações. E é precisamente aqui que a valorização dessas divisas entrava o crescimento dessas economias: encarece-lhes as exportações. Com as taxas de juro mantidas a níveis baixíssimos e a margem de manobra fiscal praticamente esgotada nos países desenvolvidos, não restam muito mais opções para intervir no mercado de capitais do que as correcções artificiais de câmbio de moeda.
Situação semelhante vivem os países em vias de desenvolvimento: como Turquia, Rússia ou Brasil. A valorização das moedas permite um crescimento mais moderado da economia de consumo interna mas pode minar por completo o crescimento económico ao retirar competitividade às exportações. Sobre como esses países estão a lidar com a situação deixo-vos um peça informativa do Financial Times (daquelas que não se encontram nos telejornais de cá): link. A actuação faz-se sempre em mecanismos com efeitos indirectos como as taxas de juro, mas, como referi acima começa a escassear o espaço de manobra. São as acções directas sobre os câmbios de moeda, sem apelo nem agravo dos mercados, que se apelidam de actos de guerra de divisa.
Abriu-se a excepção no início deste ano com os acontecimentos catastróficos ocorridos no Japão. Houve naturalmente um gigantesco fluxo de capitais para o país no sentido de encetar a reconstrução. Ou seja, houve muita gente a comprar yens, sobrevalorizando repentina e dramaticamente o yen e ameaçando asfixiar a economia exportadora japonesa, prenunciando uma grave recessão económica. Sob a concertação da Reserva Federal Norte-Americana lá houve uma venda gigantesca dos yens em reserva nos principais Bancos Centrais, de forma a aliviar o mercado. Contudo a pressão sobre o yen recomeçou devido à fuga de capitais da Europa (à laia de exemplo: 500 mil milhões de euros só para os EUA, só nos últimos 6 meses).
Neste contexto, surge então a situação noticiada pelo Expresso no artigo supra-mencionado. O Banco Central Suíço (SNB) decidiu de surpresa impor um tecto à valorização do franco suíço e anunciou que se recusaria a transaccionar o câmbio do franco suíço acima dos 0,83€ por cada franco, ou abaixo dos 1,20FrS por cada euro. O franco suíço valorizou mais de 30% face ao euro nos últimos dois anos. Especula-se se será o primeiro movimento de um Guerra de Divisas, pois facilmente este tipo de decisões unilaterais e sem concertação internacional desencadeiam espirais de respostas que agravam o problema inicial em vez de o resolverem. Como o expôs um analista da HSBC ao Financial Times:
"Actions like this simply push the problem elsewhere (...) and it threatens a situation where every central bank is trying to weaken its currency"
A Reserva Federal aliviou os ânimos admitindo que a situação da Suíça era sui generis, devido à sua posição geo-estratégica bem no seio da Europa. E de facto os dados do crescimento do PIB suíço para este ano já foram revistos em cerca de metade dos 1,9% inicialmente previstos para 0,8%. Ademais, o SNB já perdeu mais de 30 mil milhões no valor dos seus activos só em 2010, pois a maioria dos seus investimentos são em euros e dolares, que perderam valor face ao franco suíço.
Receia-se que outros países cujas divisas se têm valorizado (Japão e Brasil) possam vir a tomar atitudes do género na tentativa de evitarem a deflação no mercado interno e a perda de competitividade no mercado externo. Afastados para já da contenda das divisas parece estar o par EUA/China, cuja relação de amor-ódio tanta tinta fez correr em finais do ano passado. Agradeçamos à globalização, que não é puramente económica, mas também social: os novos hábitos de consumo da população chinesa têm inflacionado o mercado e impedido a desvalorização do Renminbi (ou Yuan).
Quem não se pode queixar da sua valorização nos mercados é o tradicional refúgio não-divisa: o ouro. Mas vendo a onça acima dos 1800 dólares, algo me diz que quem se vai queixar são os investidores quando a bolha aurífera rebentar. As correrias desenfreadas nos mercados parece-me a mim que nunca são boas. Também as tulipas já valeram mais que o ouro e vejam lá agora.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
D'Além China: colonialismo
Por estes dias chamou a imprensa internacional de desvario colonialista à novela da golden share da PT. Polémicas aqui do lodaçal Luso à parte, o que eu acho curioso é que essa mesma imprensa internacional não apelida assim tão cabalmente de colonialismo algo que muito mais flagrantemente o é; por exemplo: a pressão do Estado Chinês nas províncias do interior para onde faz deslocar milhões de chineses Hans e onde marginaliza as culturas locais.
A Amnistia Internacional denuncia a situação de Xinjiang, onde o ano passado houve centenas de mortes em confrontos étnicos.
A Amnistia Internacional denuncia a situação de Xinjiang, onde o ano passado houve centenas de mortes em confrontos étnicos.
D'Além Macedónia: Jihad na Europa
Os relatos de actos violentos por parte do movimento Wahabi crescem pelos Balcãs em número e ousadia. Desde que soldados extremistas sauditas se vieram instalar nos Balcãs, durante a conturbada década de '90, que uma rede defensora do fundamentalismo islâmico tem crescido na região. Surpreendentemente, as principais vítimas não têm sido as populações cristã e ortodoxa (maioritárias em muitos estados da região), mas sim os islâmicos moderados. O mais recente aconteceu hoje na Macedónia, como relata o AdnKronos Internacional.
É uma estratégia corriqueira dos fundamentalistas, estes ataques às facções moderadas, incutindo um clima de medo, que estas são impotentes, na sua moderação, de combaterem. Uma perspectiva do modus operandi dos fundamentalistas muitas vezes desconhecida ou propositadamente ignorada no Ocidente.
Um outro na mesma linha de acção ocorrido hoje teve lugar em Lahore, no Paquistão, matando 50 pessoas, como nos relata a Foreign Policy.
De lamentar é falta de interesse da opinião pública Europeia em relação a problemas em estado embrionário. Quando há centenas de mortes (Iraque), manifestações gigantescas (Irão) ou golpes militares sangrentos (Bangladesh) isso é notícia. Choca e dá audiências. Não digo que o fundamentalismo nos Balcãs vá atingir as mesmas proporções que no Médio Oriente, mas é um fenómeno em franco crescimento e poucos lhe dão atenção. O problema está aqui, à porta da Europa e alguma coisa se deveria fazer. Quantos serão precisos morrer antes que isso aconteça?
É uma estratégia corriqueira dos fundamentalistas, estes ataques às facções moderadas, incutindo um clima de medo, que estas são impotentes, na sua moderação, de combaterem. Uma perspectiva do modus operandi dos fundamentalistas muitas vezes desconhecida ou propositadamente ignorada no Ocidente.
Um outro na mesma linha de acção ocorrido hoje teve lugar em Lahore, no Paquistão, matando 50 pessoas, como nos relata a Foreign Policy.
De lamentar é falta de interesse da opinião pública Europeia em relação a problemas em estado embrionário. Quando há centenas de mortes (Iraque), manifestações gigantescas (Irão) ou golpes militares sangrentos (Bangladesh) isso é notícia. Choca e dá audiências. Não digo que o fundamentalismo nos Balcãs vá atingir as mesmas proporções que no Médio Oriente, mas é um fenómeno em franco crescimento e poucos lhe dão atenção. O problema está aqui, à porta da Europa e alguma coisa se deveria fazer. Quantos serão precisos morrer antes que isso aconteça?
D'Além Bruxelas: as promessas estão feitas!
Discussão da estratégia da União Europeia para 2020 com incidência nas reformas do sistema financeiro. Durão Barroso mantém-se fiel a si mesmo: suave e nada assertivo. Fica uma ideia de leviandade no ar no que respeita à regulação do sistema bancário, uma vez que Barroso se recusa, como sempre, a dar força aos discursos que faz, na tentativa de agradar a Gregos e Troianos. Algo muito Português, diga-se de passagem, a de dar uma no cravo e outra na ferradura. Algo que não é necessariamente mau e que no passado nos salvou de apertos, enquanto país pequeno a navegar em águas internacionais turbulentas. Cf. Grande Cisma da Ocidente (séc. XIV-XV), a neutralidade de D.João V (séc.XVIII) ou de Salazar (séc.XX). O segredo da diplomacia à portuguesa é parecer ceder a todos, não assumindo posição de força e assim os levar onde queremos. Estaria isto muito bem não fosse a falta de ambição subjacente e os fracos resultados que esta atitude prenuncia. Com esta atitude pouco mais se consegue que um status quo, que em momentos do passado poderá ter constituído um grande ganho político, mas que na situação económica actual da UE é tudo o que não precisamos. Veremos se Barroso se revela neste seu segundo consulado e se consegue impor rumo às reformas que a União Monetária desesperadamente necessita.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
D'Além Nigéria: Selecção de Futebol banida!
D'Além trago aqui um insólito! O Presidente da Nigéria Goodluck Jonathan baniu a selecção nacional - os Super Eagles - de jogar em competições durante os próximos dois anos, após uma participação desastrosa no Mundial de Futebol da África do Sul. Deixo-vos com uma questão assaz pertinente do Sahara Reporters:
"The shocking part of the decision is that the person making this decision is the president. This is the same president who brought 140 people to Canada for a needless jamboree only a few days ago. A president who is presiding over an oil producing country that is wallowing in darkness. A president who does not have the courage to arrest and prosecute his friends and political godfathers who have been indicted for accepting bribes from Halliburton and Siemens. ... A president who is presiding over a country in which the National Assembly dominated by members of his party are basically looting the treasury through dubious constituency allowances. In light of his failures, will the president withdraw himself from office for two years as he has done to the Super Eagles? If there is a World Cup for good governance, would Goodluck Jonathan make the tenth eleven? Your guess is as good as mine."
Imagem: Carl De Souza/Afp/Getty Images, in CBC Sports
"The shocking part of the decision is that the person making this decision is the president. This is the same president who brought 140 people to Canada for a needless jamboree only a few days ago. A president who is presiding over an oil producing country that is wallowing in darkness. A president who does not have the courage to arrest and prosecute his friends and political godfathers who have been indicted for accepting bribes from Halliburton and Siemens. ... A president who is presiding over a country in which the National Assembly dominated by members of his party are basically looting the treasury through dubious constituency allowances. In light of his failures, will the president withdraw himself from office for two years as he has done to the Super Eagles? If there is a World Cup for good governance, would Goodluck Jonathan make the tenth eleven? Your guess is as good as mine."
Imagem: Carl De Souza/Afp/Getty Images, in CBC Sports
quarta-feira, 30 de junho de 2010
[sic]"On n'est qu'on-même hypocrites!"
Obrigado ao Marco Dias Rodrigues (Aprender, criticando) por me ter chamado a atenção para este vídeo! Um discurso brilhante por Cohn-Bendit e possivelmente uma das poucas vozes independentes que ainda clamam por justiça nas instituições políticas de hoje em dia. Uma análise extremamente interessante e que trás à luz da opinião pública uma perspectiva muito bem apanhada das relações económicas Europa-Grécia e a relação com o conflito cipriota. Vale a pena perder 5min a ouvir.
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