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terça-feira, 27 de setembro de 2011

D'Além Atlântico: Desespero eleitoralista?

Ele sempre há gente com uma descomunal lata! Disse Obama ontem ao Mundo a partir da Califórnia algo como:


"o fracasso da Zona Euro [deve-se] à ausência de regulação do sector da banca e ao atraso na resposta aos problemas que foram surgindo."

Isto vindo de alguém que lidera um país cujas políticas de desregulação da Administração Central e da Reserva Federal permitiram a bolha do mercado imobiliário e o crash dos mercados devido aos activos tóxicos da banca de investimento e que, consequentemente, há pouco mais de 3 anos mergulharam o Mundo numa crise económico-financeira. Isto vindo de alguém que há até bem poucos dias andava a contar as horas para o incumprimento do próprio país devido às desavenças politiqueiras no Senado e cujo atraso na resposta agravou a volatilidade dos mercados com consequências nefastas para a nossa própria crise dívida.

Não é que eu discorde da análise. Mas isto lançado assim, do topo do púlpito moral do laureado com o Nobel da Paz, que moral para falar tem pouca ou nenhuma (e paz de espírito também não, que está a ver a reeleição cada vez mais longe), isto, dizia, é coisa para me dar uma reacção alérgica de moderada a forte... Vou à procura dos anti-histamínicos.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

D'Além Delito d'Opinião: Administração Pública

 Aqui transcrevo o meu comentário deixado aqui, no blog Delito de Opinião:

Creio que nem o Rui entendeu bem o contexto do que escrevi, nem eu o terei escrito com a precisão necessária a quem quer ser bem interpretado.

Para mim, existe uma enorme diferença entre um trabalhador dependente do estado (onde temos de incluir médicos e demais pessoal hospitalar, professores, polícias, juízes, etc.) e o funcionalismo público, aquela administração pura e dura, dos caciques e cunhas. (E aceito que me redargue que tal distinção não tem propriamente tradução oficial).

O que gostava que compreendesse, é que quando afirmo que: andam 500 mil indivíduos (singulares e colectivos) a pagar com o seu trabalho a vida a cerca de 4 milhões de dependentes do Estado (directos e indirectos); não pretendo criticar implicitamente os profissionais que de facto constituem o alardeado Estado Social, mas sim aquele segundo grupo de indivíduos, o arquétipo de funcionário público, com o seu empregozinho.

Ademais, permita-me que lhe recorde que o Estado Social - no qual não se pode tocar, que aqui d'El-Rei que nos roubam e valha-nos a Santa Engrácia que isto é um país de ultra-liberais! - esse Estadozinho não tem na sua dependência apenas escolas, hospitais e tribunais. Parafraseando o famigerado post do agora Ministro da Economia:

"[Dependem do Estado] 349 Institutos Públicos, 87 Direcções Regionais, 68 Direcções-Gerais, 25 Estruturas de Missões, 100 Estruturas Atípicas, 10 Entidades Administrativas Independentes (...), 8 entidades e sub-entidades das Forças Armadas, 3 Entidades Empresariais regionais, 6 Gabinetes, 1 Gabinete do Primeiro Ministro, 16 Gabinetes de Ministros, 38 Gabinetes de Secretários de Estado, 15 Gabinetes dos Secretários Regionais, 2 Gabinetes do Presidente Regional, 2 Gabinetes da Vice-Presidência dos Governos Regionais, 18 Governos Civis, 2 Áreas Metropolitanas, 9 Inspecções Regionais, 16 Inspecções-Gerais, 31 Órgãos Consultivos, (...), 17 Secretarias-Gerais, 17 Serviços de Apoio, 2 Gabinetes dos Representantes da República nas regiões autónomas, e ainda 308 Câmaras Municipais, 4260 Juntas de Freguesias. Há ainda as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, e as Comunidades Inter-Municipais."

(Note que a estrutura ministerial ainda é referente ao consulado de Pinto de Sousa).

Continuando a caracterização deste funcionalismo público que espero que V.Ex. não defenda tão acerrimamente quanto a classe médica, gostaria já agora de lhe chamar a atenção para a despesa real deste dito "Estado Social". Para poder argumentar com alguma propriedade fui retirar os valores ao OE2011. (Valores em milhões de euros). Repare que as despesas correntes do M.Saúde (8365,5), M. Educação (6261,5), M.Ciência e ES (1.868,5) e a despesa de pessoal do M.Justiça (1076,1) somam algo como €17.571,6 milhões. Se contrapuser o somatório das despesas correntes dos Encargos Gerais do Estado (1353,9), Presidência do Conselho de Ministros (228,4) e de pessoal dos MNE (352,9), MD (1823,7), M.Econ. (140,1), MOPT (120,8), M.Agr. (222,3) e do M.F. e Administração Pública (19007,0). Só essas despesas do funcionalismo puro e duro dão algo como €23249,1 milhões. E falta aqui Sector Empresarial do Estado, prémios, ajudas de custo, pensões, contratos com as empresas dos amigos, primos e cunhados, pareceres milionários a escritórios de advogados e tudo e tudo e tudo o mais.

Acho que elucidei o porquê de para mim essa máquina do funcionalismo público ser o Diabo na terra! Porque é que passada uma década a ouvir previsões catastróficas dos Professores Bambo e Medina Carreira ninguém mexeu uma palha para mudar a situação? Porque sempre houve muito milhões de portugueses com milhares de milhões de razões para que nada mudasse.

Foi o clássico "quanto pior, melhor". Até à bancarrota. E quando entrámos em bancarrota (não tenham ilusões aí), alguém nos estendeu a mão e disse: e agora que continuem a pagar os que sempre pagaram que isto é uma questão de patriotismo pah! Tudo pela Nação, nada contra a Nação! Salve-se a pátria do Belzebu dos mercados que foram os grandes arquitectos desta crise! Ámen

domingo, 11 de setembro de 2011

D'Além Economia: Guerra de Divisas II

Na sequência do que aqui publiquei há uns dias em Guerras de Divisas, chamo agora a atenção para uma entrevista interessantíssima de  James Dines no Expresso on-line. Deixo aqui alguns excertos para aguçar a curiosidade.

"Os Estados Unidos têm cortado as ligações entre o seu papel-moeda e o ouro há mais de um século, como referi em "Goldbug". Têm-no feito passo a passo, com o resultado de que hoje todas as divisas flutuam sem qualquer ligação a qualquer valor tangível. Deste modo, flutuam em função do montante de papel que cada país imprime."


"É pouco provável que os países parem de dar à manivela da impressora, ou que o façam exatamente ao mesmo tempo e ao mesmo ritmo. Como todas flutuam umas contra as outras, a instabilidade arrisca um crash histórico algures no futuro."


"Acabamos por ficar maravilhados com o facto de que o Japão imprime ienes para comprar dólares sem se aperceber que é um castelo de cartas ilusório e vulnerável a uma ventania."


"Foi a Conferência de Génova em 1922 que decidiu duplicar a oferta de moeda de modo a poder pagar-se o custo da 1ª Guerra Mundial, como refiro na minha obra "Goldbugs". Foi esse mar de papel que desencadeou os designados "estrondosos anos 20". A inevitável deflação imediatamente a seguir a 1929 foi normal e natural - eliminando os excessos de papel impresso."


"Nem toda a gente percebe que a palavra inflação quer dizer aumento da oferta de moeda, e não é sinónimo de preços mais altos. As dores da deflação já estão a ser sentidas nos EUA, especialmente nos salários e na ausência de criação de emprego, mas também se sente à escala mundial. A hiperimpressão de dólares está a fazer o seu caminho para as commodities e esse aumento de preços está desencadeando violência a revoluções numa série de países pelo mundo fora."


"Se as coisas não mudarem, o mundo está a ir direitinho para o que chamo de "segunda grande depressão", onde a ânsia de ganhos financeiros será extirpada e substituída pela sobrevivência do capital."

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

D'Além Economia Globalizada: Guerras de Divisas

Um artigo (Um primeiro tiro na Guerra de Divisas) na secção de Economia do Expresso on-line despoletou-me a curiosidade e lá fui, no meu papel de leigo no mundo da finança, dedicar-me a essa nobre arte de aprender. Os desafios de uma economia globalizada são sem dúvida extraordinários. Ademais, quando ajuntamos à equação o paradigma da situação político-social da época moderna, o nível de complexidade gerado é assombroso. Em boa verdade, o que já não existe nestes nossos tempos é precisamente um paradigma, quanto mais um arquétipo ou um ideal. Vivemos cada vez mais numa sociedade pautada, a todos os níveis, pela mudança cada vez mais veloz, pela evolução cada vez mais rápida da realidade. Para os nossos pobres cérebros (cujas bases arquitecturais se formaram à centenas de milhares de anos atrás), este novo padrão da sociedade contemporânea, que é, por assim dizer, a falta desse mesmo padrão, apenas poderá ser percepcionado como instabilidade e volatilidade.

Ora se há domínio da sociedade moderna que se habitou desde o século XVII a viver sem a estabilidade que o comum dos mortais almeja é a Finança. Os mercados são por definição voláteis e imprevisíveis. Mas até mesmo os desafios desta nova era pós-11-de-Setembro se estão a revelar como um pouco mais do que os mercados financeiros conseguem digerir. A globalização da Economia iniciada pelos portugueses nessa longínqua centúria de Quinhentos, em que o anos ainda eram da Graça do Senhor, apenas se consubstanciou verdadeiramente no pós-Segunda-Grande-Guerra. Ou seja, quando o mundo não-Europeu-ou-Americano foi evoluindo de um papel de subserviência ou clientelismo económico para o de um parceiro de facto. É, em suma, uma realidade recente.

O ovo de Colombo desta nova realidade é que perturbações num dos elementos do sistema se irão repercutir gravemente no sistema como um todo, afectando o seu normal funcionamento. Até há bem poucos anos o Mundo vivia na dicotomia Mundo Desenvolvido e Mundo Subdesenvolvido. O estalar do verniz do modelo de Estado Social dos desenvolvidos países Europeus em concomitância com a surgimento das economias "em vias de desenvolvimento" (leia-se BRICS) apresenta desafios aos modelos e convicções estabelecidas nos mercados financeiros. Os capitais estão a fugir do Euro e a procurar refúgios. Os investidores deixaram de considerar a zona-Euro (um dos três grandes motores económicos do mundo) como um local seguro para investir o seu dinheiro e estão a transferi-lo para outros activos. Daí os crashes bolsistas na Europa (que acabam por arrastar e contagiar as demais praças, lá está a globalização outra vez) e a desvalorização da nossa divisa.

E para onde vai o dinheiro? O destino é um de dois: para os demais activos convencionais (entre os quais costumavam estar os europeus), leia-se ouro, EUA, Japão, Suíça, Dinamarca, Noruega e Suécia; ou para os considerados mais arriscados, mas ainda assim preferíveis ao lodaçal que se transformou o Velho Mundo, países em vias de desenvolvimento, sempre ávidos de investimento. A economia mundial não cresce a bom crescer no Mundo Desenvolvido desde a época áurea dos anos 90. O arrefecimento do comércio mundial, que nem os à-primeira-vista-espetaculares crescimentos do PIB de países em desenvolvimento parecem já conseguir contrapor, está a dificultar a retomada económica tanto na já fragilizada zona-Euro, como nos EUA e demais países Ocidentais.

Para estes países (EUA, Japão, Suíça, Dinamarca, Noruega e Suécia) a fuga de capitais da zona-Euro para os seus países está a afigurar-se como um entrave ao desenvolvimento. Como é que a entrada de capital num país pode refrear o seu crescimento económico? Parece um non sequitur, mas não é. A transferência de capitais para fora da zona-Euro implica que esses capitais vão passar para divisas diferentes, ou seja, na prática implica que se está a vender muitos euros para se comprarem dólares, yens, francos suíços e coroas nórdicas. Ora das leis da oferta e da procura que até um leigo como eu conhece, o mercado tem tendencialmente evoluído no sentido de desvalorizar o euro e valorizar as demais divisas.

O problema para os países Ocidentais fora da zona-Euro é que esta mesma zona é (ainda) um dos maiores mercados da Economia globalizada e praceiro comercial major de todas essas nações. Ora num contexto de crise económica generalizada interessa a toda a gente corrigir o equilíbrio da balança comercial aumentando as exportações. E é precisamente aqui que a valorização dessas divisas entrava o crescimento dessas economias: encarece-lhes as exportações. Com as taxas de juro mantidas a níveis baixíssimos e a margem de manobra fiscal praticamente esgotada nos países desenvolvidos, não restam muito mais opções para intervir no mercado de capitais do que as correcções artificiais de câmbio de moeda.

Situação semelhante vivem os países em vias de desenvolvimento: como Turquia, Rússia ou Brasil. A valorização das moedas permite um crescimento mais moderado da economia de consumo interna mas pode minar por completo o crescimento económico ao retirar competitividade às exportações. Sobre como esses países estão a lidar com a situação deixo-vos um peça informativa do Financial Times (daquelas que não se encontram nos telejornais de cá): link. A actuação faz-se sempre em mecanismos com efeitos indirectos como as taxas de juro, mas, como referi acima começa a escassear o espaço de manobra. São as acções directas sobre os câmbios de moeda, sem apelo nem agravo dos mercados, que se apelidam de actos de guerra de divisa.

Abriu-se a excepção no início deste ano com os acontecimentos catastróficos ocorridos no Japão. Houve naturalmente um gigantesco fluxo de capitais para o país no sentido de encetar a reconstrução. Ou seja, houve muita gente a comprar yens, sobrevalorizando repentina e dramaticamente o yen e ameaçando asfixiar a economia exportadora japonesa, prenunciando uma grave recessão económica. Sob a concertação da Reserva Federal Norte-Americana lá houve uma venda gigantesca dos yens em reserva nos principais Bancos Centrais, de forma a aliviar o mercado. Contudo a pressão sobre o yen recomeçou devido à fuga de capitais da Europa (à laia de exemplo: 500 mil milhões de euros só para os EUA, só nos últimos 6 meses).

Neste contexto, surge então a situação noticiada pelo Expresso no artigo supra-mencionado. O Banco Central Suíço (SNB) decidiu de surpresa impor um tecto à valorização do franco suíço e anunciou que se recusaria a transaccionar o câmbio do franco suíço acima dos 0,83€ por cada franco, ou abaixo dos 1,20FrS por cada euro. O franco suíço valorizou mais de 30% face ao euro nos últimos dois anos. Especula-se se será o primeiro movimento de um Guerra de Divisas, pois facilmente este tipo de decisões unilaterais e sem concertação internacional desencadeiam espirais de respostas que agravam o problema inicial em vez de o resolverem. Como o expôs um analista da HSBC ao Financial Times:
"Actions like this simply push the problem elsewhere (...) and it threatens a situation where every central bank is trying to weaken its currency"
A Reserva Federal aliviou os ânimos admitindo que a situação da Suíça era sui generis, devido à sua posição geo-estratégica bem no seio da Europa. E de facto os dados do crescimento do PIB suíço para este ano já foram revistos em cerca de metade dos 1,9% inicialmente previstos para 0,8%. Ademais, o SNB já perdeu mais de 30 mil milhões no valor dos seus activos só em 2010, pois a maioria dos seus investimentos são em euros e dolares, que perderam valor face ao franco suíço.

Receia-se que outros países cujas divisas se têm valorizado (Japão e Brasil) possam vir a tomar atitudes do género na tentativa de evitarem a deflação no mercado interno e a perda de competitividade no mercado externo. Afastados para já da contenda das divisas parece estar o par EUA/China, cuja relação de amor-ódio tanta tinta fez correr em finais do ano passado. Agradeçamos à globalização, que não é puramente económica, mas também social: os novos hábitos de consumo da população chinesa têm inflacionado o mercado e impedido a desvalorização do Renminbi (ou Yuan).

Quem não se pode queixar da sua valorização nos mercados é o tradicional refúgio não-divisa: o ouro. Mas vendo a onça acima dos 1800 dólares, algo me diz que quem se vai queixar são os investidores quando a bolha aurífera rebentar. As correrias desenfreadas nos mercados parece-me a mim que nunca são boas. Também as tulipas já valeram mais que o ouro e vejam lá agora.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Quer-se um bom artigo e não há...

Estando em época de exames por estes dias, o tempo para acompanhar devidamente a actualidade não tem sido de sobeja. Ora hoje de manhã pensei que era bom dia para tentar perceber como é que da situação grega a coisa tinha escalado para zunzuns de que vinha aí o fim do Euro. Ora isto quem quer aprender alguma coisa nestes dias bem que tem de pedalar. Não procurava um artigo de fundo, apenas alguns highlights, por isso esquadrinhei a imprensa nacional on-line.

Bem que me esforcei para nada! Há futebol, há Verão e a politiquice mesquinha do costume; pouco mais. Encontra-se alguns comentários pela blogosfera (como este n'O Cachimbo), mas nada que me satisfizesse. Lá capitulei e abri a página daquela publicação que ainda não me falhou nestes assuntos: The Economist. Aos interessados aqui fica a nota de um conjunto de artigos de opinião interessantíssimos quanto ao futuro da moeda única. Destacava as regras propostas pelo Hans-Werner Sinn, particularmente a ideia de ligar os limites do deficit do Pacto de Estabilidade aos pontos de endividamento sobre GDP.

Obviamente que não podia esperar este nível de insight (desculpem mas só me sai o inglês hoje) da imprensa generalista. Não deixa de ser aberrante, todavia, que os verdadeiros problemas com que o país está confrontado de momento não encontrem eco no meio jornalístico. E façam-me um favor, deixem lá a histeria da saga PT/Telefónica/Vivo que já não há pachorra. Mas ainda espanta alguém que um alienado com problemas de identidade e tendências megalómanas continue a tomar decisões néscias apenas para salvar a face? (É ateu, é ateu, mas ainda acredita em milagres). Deixem lá meus caros, a coisa resolve-se na mesma. Dêem uns dias aos Tribunais Europeus e lá se vai o brilho da golden share. Eu percebo a perplexidade, a revolta e indignação que por aí vai à conta do assunto. Como alguém muito bem notou n'O Cachimbo noutros tempos já o Governo já tinha caído do poleiro. Ele hoje também cai, mas procrastina-se em olvido a chafurdar na lama. Eu, por mim, vou tentando não ir muito para o meio do lodaçal que me agonia o cheiro.


Imagem: cortesia de iStockphoto