terça-feira, 5 de abril de 2011

Conversas de vão de escada


Elegeram o limbo entre o privado e o público como paradigma da sua relação e diálogos. Tal é consubstanciado pelo local privilegiado por ambos para a interacção: o patamar do vão de escada. Local que é público e para o qual dão os apartamentos que habitam, afigurando-se então como limite da privacidade destes vizinhos de patamar. Lugar que, graças à tradição de deixar as portas de rua entreabertas enquanto debatem, ganha um ambiente que cristaliza a indefinição do nível de intimidade que consentem àquela relação. 

Seguem quase sempre uma dialética hengeliana, talvez por acaso, talvez por princípio dialético, talvez por medo de dar demasiado de si mesmo perseverando numa antítese reveladora. O debate nunca se esgota, pois para aqueles que se deleitam com a senda da compreensão dos vários Universos (do átomo, do Homem, da sociedade e, em última instância, da mente), não haverá nunca saciedade. 

Os ponteiros do relógio avançam inexoravelmente na sua cadência ritmada de precisão suíça e pontualidade britânica. Alguma palavra, gesto ou omissão gera, por uma qualquer via neuronal complexa e além do entendimento ou consciência de ambos, a noção de que é necessário abandonar os prazeres abstractos e metafísicos, pois além d’aquele vão de escada a vida espera. Invariavelmente essa noção surge-lhe a ela. 

Ele aprendeu a ler-lhe a expressão e adivinha-a mal esta se instala na sua mente. Aprendeu a não duvidar do cariz imperioso com que tal sensação se aloja no consciente dela e respeita-o, aquiescendo sem qualquer óbice ao término da conversação. Mas no íntimo não o entende; porque não o sente. Sente, ao invés, uma vontade de prolongar o momento ad infinitum. Não sabe explicar porquê e não se perde em divagações. 

Deseja boa noite de forma cortês, retira-se para lá do vão de porta e, lançando ainda uma qualquer despedida, empurra então a contragosto a barreira física que o separa da rua. E dela. A luz escapar-se para dentro das casas e, no agora sombrio patamar, o eco distante das suas ideias, sonhos e utopias dispersa-se no silêncio tranquilo da noite que chegou.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Frases que valem a pena III

Dos poucos prazeres simples da vida, um dos que mais aprecio é ver sob meus olhos impresso o meu estado de espírito nos devaneios de outrem. Há um qualquer partilhar, uma qualquer proximidade nisso. Mas mais importante, há um cristalizar, um definir, um irremediável concretizar de um, até então, etéreo e difuso estado d'alma. Creio que há algo de catársico em tudo isso...


 "Se a vida é isto, aceitemo-la corajosamente como ela é, e avante! Aprenda-se a ser desgraçado, visto que é essa a mais segura maneira de se ser feliz!"

in O Mistério da Estrada de Sintra, Eça de Queiróz e Ramalho Ortigão

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

D'Aquém Minh'alma: À tona d'água

À tona d'água

Flutuo em lânguido olvido
D'ali e d'além esquecido
Em mim, marasmo momento;
Mergulho em mar calmo e lento.
Fluem as águas salgadas
Em leito ondulante tornadas.
Sobre elas medito suspenso
Que estou entre mim e o imenso.

Oscilo qual pêndulo d'horas
Há muito perdidas. D'aquém e
D'além venho em vagas, vãs horas
Sentidas; balanço perdido.

Perpétua procura pedante
De mim malograda. Perpétua
Minh'alma perdida entre mares
Por fátuo fogo inflamada.

Aqui desencontro-me leve,
Vagueio imerso em fluxo
Corrente sem 'spaço, sem tempo,
Em límpido líquido, livre
De mim e do mais que é nada.
Aqui fico em 'spera qu'engenho
De corpo ou mente; que a ponte,
Eflúvio de louco ou dolente,
Me leve d'aquém a minh'alma.

31 de Agosto de 2010

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Frases que valem a pena II

via: O Cachimbo de Magrite

The iniquity of all the principal men in any community, of kings and ministers especially, does not consist alone in the crimes they commit, and in the immediate consequences of these crimes they commit; and, therefore, their guilt is not to be measured by these alone. Such men sin against posterity, as well as against their own age; and when the consequences of their crimes are over, the consequences of their example remain.

Visconde Bolingbroke (1738)

domingo, 4 de julho de 2010

Omnia vincit amor ou o sonho de uma noite de Verão

3 de Julho. 22h00. Largo de São Carlos, Lisboa.  Romeu e Julieta, Tchaikovsky.

O murmúrio declinou e cedeu. O silêncio quente de Julho inundava o largo já apinhado de rostos expectantes. O universo sustinha-se em compasso de espera. Soaram ténues e diáfanos os primeiros acordes na noite luminosa de Estio. Delicados e oprimidos ainda pelo calor da expectativa silenciosa. Sob comando magistral, outros acordes e tons se vieram sobrepor aos primeiros, ampliando-os, enriquecendo-os paulatinamente. As harmonias cruzaram-se, entrelaçaram-se, fundiram-se em arabescos fluidos e etéreos. Teceram-se no ar quente as tramas e desditas do famigerado casal de
Verona; num caleidoscópio ardente em constante metamorfose, que não olvidava a sua génese, antes a engrandecia, multiplicava e transmutava em outras cores consubstanciais à primeira. Brotou assim entre arco e corda, entre lábios e metal, um Amor quente que dimanou pelos ares contagiando as orbes celestes. Os olhos enamorados perfulgiam na assistência, na dama à varanda e no firmamento, fazendo recuar a noite face à força avassaladora deste Amor. Agigantou-se, alimentando-se da sua própria vitalidade ardente, da sua crença contumaz na sua imortalidade. As suas reverberações cada vez mais intensas, impetuosas e inflamadas propagavam-se aos corações e a todo o universo. Os arrepios desciam pela coluna em frenesim incontrolável, despoletados pela violência fervorosa com que os arcos acariciavam as cordas. E subitamente a morte. Qual trovão no denso ar estival, a tudo põe fim. Inexorável, despiedada, atroz. Dos lamentos fúnebres renasceram em crescendo os acordes daquele Amor imperecível. Força vital inextinguível, que noutra tonalidade, noutra cor, noutra dimensão se ergueu sobre o seu carrasco, glorioso e triunfante. Rindo da morte em vibratos e crescendos, qual Otelo, roubando algo a quem tudo lhe roubara. Ressurrecto, não julgou nem puros nem pecadores; antes a todos afagou em acordes que se perderam em fragrâncias rubras e radiâncias oloríferas. Os tons esvaeceram-se e o encanto desfez-se. Comigo ficou o sonho de uma noite de Verão.

"Did my heart love till now ? Forswear it, sight!, For I ne'er saw true beauty till this night"

sábado, 3 de julho de 2010

D'Aquém: a Alegria

Numa alegre reunião, subiu Alegre alegremente ao palco para nos brindar com mais uma tirada de alegre humor:

"Não quero na Presidência alguém que tenha a superstição dos mercados"

O senhor Alegre depois de tanta convivência com o senhor de Sousa ganhou o gosto a criar jogos de ilusão - como o recente de que os nossos níveis de desemprego estão em linha com a Europa. O senhor Alegre talvez me queira convencer que o 1% que estamos a pagar a mais de IVA desde anteontem, ou o próprio desemprego que não desce, ou a subia dos juros da dívida pública também são todos superstições e mistificações.

O senhor Alegre que continue a escrever trovas à Bandarra e não venha todo néscio e estulto dizer que não percebe nada de Economia para de seguida nos presentear com pérolas destas. Fique-se com o reconhecimento de que de facto de Economia nada percebe e tenha um bom dia.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

D'Além China: colonialismo

Por estes dias chamou a imprensa internacional de desvario colonialista à novela da golden share da PT. Polémicas aqui do lodaçal Luso à parte, o que eu acho curioso é que essa mesma imprensa internacional não apelida assim tão cabalmente de colonialismo algo que muito mais flagrantemente o é; por exemplo: a pressão do Estado Chinês nas províncias do interior para onde faz deslocar milhões de chineses Hans e onde marginaliza as culturas locais.

A Amnistia Internacional denuncia a situação de Xinjiang, onde o ano passado houve centenas de mortes em confrontos étnicos.

D'Além Macedónia: Jihad na Europa

Os relatos de actos violentos por parte do movimento Wahabi crescem pelos Balcãs em número e ousadia. Desde que soldados extremistas sauditas se vieram instalar nos Balcãs, durante a conturbada década de '90, que uma rede defensora do fundamentalismo islâmico tem crescido na região. Surpreendentemente, as principais vítimas não têm sido as populações cristã e ortodoxa (maioritárias em muitos estados da região), mas sim os islâmicos moderados. O mais recente aconteceu hoje na Macedónia, como relata o AdnKronos Internacional.


É uma estratégia corriqueira dos fundamentalistas, estes ataques às facções moderadas, incutindo um clima de medo, que estas são impotentes, na sua moderação, de combaterem. Uma perspectiva do modus operandi dos fundamentalistas muitas vezes desconhecida ou propositadamente ignorada no Ocidente.


Um outro na mesma linha de acção ocorrido hoje teve lugar em Lahore, no Paquistão, matando 50 pessoas, como nos relata a Foreign Policy.

De lamentar é falta de interesse da opinião pública Europeia em relação a problemas em estado embrionário. Quando há centenas de mortes (Iraque), manifestações gigantescas (Irão) ou golpes militares sangrentos (Bangladesh) isso é notícia. Choca e dá audiências. Não digo que o fundamentalismo nos Balcãs vá atingir as mesmas proporções que no Médio Oriente, mas é um fenómeno em franco crescimento e poucos lhe dão atenção. O problema está aqui, à porta da Europa e alguma coisa se deveria fazer. Quantos serão precisos morrer antes que isso aconteça?

D'Além Mariinski: muito mais que um palito!

Concerto de Ano Novo de 2007 no Teatro que é um dos legados mais emblemáticos de Catarina na cidade emblemática de Pedro, os dois Grandes. Aqui se vê o que um génio consegue fazer com um palito. Além de uma técnica impecável e além repreensão - algo a que já nos habituaram os Russos -, a Orquestra de São Petersburgo apresenta-nos uma interpretação que este genial Gergiev, munido de palito, lhe arranca com uma carga emocional avassaladora, não tão comum nos espectáculos eslavos. Muito além!

D'Além Bruxelas: as promessas estão feitas!

Discussão da estratégia da União Europeia para 2020 com incidência nas reformas do sistema financeiro. Durão Barroso mantém-se fiel a si mesmo: suave e nada assertivo. Fica uma ideia de leviandade no ar no que respeita à regulação do sistema bancário, uma vez que Barroso se recusa, como sempre, a dar força aos discursos que faz, na tentativa de agradar a Gregos e Troianos. Algo muito Português, diga-se de passagem, a de dar uma no cravo e outra na ferradura. Algo que não é necessariamente mau e que no passado nos salvou de apertos, enquanto país pequeno a navegar em águas internacionais turbulentas. Cf. Grande Cisma da Ocidente (séc. XIV-XV), a neutralidade de D.João V (séc.XVIII) ou de Salazar (séc.XX). O segredo da diplomacia à portuguesa é parecer ceder a todos, não assumindo posição de força e assim os levar onde queremos. Estaria isto muito bem não fosse a falta de ambição subjacente e os fracos resultados que esta atitude prenuncia. Com esta atitude pouco mais se consegue que um status quo, que em momentos do passado poderá ter constituído um grande ganho político, mas que na situação económica actual da UE é tudo o que não precisamos. Veremos se Barroso se revela neste seu segundo consulado e se consegue impor rumo às reformas que a União Monetária desesperadamente necessita.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

D'Além Nigéria: Selecção de Futebol banida!

D'Além trago aqui um insólito! O Presidente da Nigéria Goodluck Jonathan baniu a selecção nacional - os Super Eagles - de jogar em competições durante os próximos dois anos, após uma participação desastrosa no Mundial de Futebol da África do Sul. Deixo-vos com uma questão assaz pertinente do Sahara Reporters:

"The shocking part of the decision is that the person making this decision is the president. This is the same president who brought 140 people to Canada for a needless jamboree only a few days ago. A president who is presiding over an oil producing country that is wallowing in darkness. A president who does not have the courage to arrest and prosecute his friends and political godfathers who have been indicted for accepting bribes from Halliburton and Siemens. ... A president who is presiding over a country in which the National Assembly dominated by members of his party are basically looting the treasury through dubious constituency allowances. In light of his failures, will the president withdraw himself from office for two years as he has done to the Super Eagles? If there is a World Cup for good governance, would Goodluck Jonathan make the tenth eleven? Your guess is as good as mine."

Imagem:  Carl De Souza/Afp/Getty Images, in CBC Sports

Frases que valem a pena I

No meio de tudo isto, há o discurso incompreensível do Primeiro-ministro, como se estivesse investido de uma missão sacralizada de pregar confiança, esquecendo que a confiança se cria, não se apregoa.

Quer-se um bom artigo e não há...

Estando em época de exames por estes dias, o tempo para acompanhar devidamente a actualidade não tem sido de sobeja. Ora hoje de manhã pensei que era bom dia para tentar perceber como é que da situação grega a coisa tinha escalado para zunzuns de que vinha aí o fim do Euro. Ora isto quem quer aprender alguma coisa nestes dias bem que tem de pedalar. Não procurava um artigo de fundo, apenas alguns highlights, por isso esquadrinhei a imprensa nacional on-line.

Bem que me esforcei para nada! Há futebol, há Verão e a politiquice mesquinha do costume; pouco mais. Encontra-se alguns comentários pela blogosfera (como este n'O Cachimbo), mas nada que me satisfizesse. Lá capitulei e abri a página daquela publicação que ainda não me falhou nestes assuntos: The Economist. Aos interessados aqui fica a nota de um conjunto de artigos de opinião interessantíssimos quanto ao futuro da moeda única. Destacava as regras propostas pelo Hans-Werner Sinn, particularmente a ideia de ligar os limites do deficit do Pacto de Estabilidade aos pontos de endividamento sobre GDP.

Obviamente que não podia esperar este nível de insight (desculpem mas só me sai o inglês hoje) da imprensa generalista. Não deixa de ser aberrante, todavia, que os verdadeiros problemas com que o país está confrontado de momento não encontrem eco no meio jornalístico. E façam-me um favor, deixem lá a histeria da saga PT/Telefónica/Vivo que já não há pachorra. Mas ainda espanta alguém que um alienado com problemas de identidade e tendências megalómanas continue a tomar decisões néscias apenas para salvar a face? (É ateu, é ateu, mas ainda acredita em milagres). Deixem lá meus caros, a coisa resolve-se na mesma. Dêem uns dias aos Tribunais Europeus e lá se vai o brilho da golden share. Eu percebo a perplexidade, a revolta e indignação que por aí vai à conta do assunto. Como alguém muito bem notou n'O Cachimbo noutros tempos já o Governo já tinha caído do poleiro. Ele hoje também cai, mas procrastina-se em olvido a chafurdar na lama. Eu, por mim, vou tentando não ir muito para o meio do lodaçal que me agonia o cheiro.


Imagem: cortesia de iStockphoto

Aprendendo com os antigos I

Acredito piamente que a falta de atenção às lições de História é responsável por uma grande falta de perspectiva da qual padecem largos milhares de Portugueses. Se quando sentados no banco da escola desenhassem menos corações entre suspiros e mandassem menos SMSs - sim, eu percebo que era mesmo urgente -, teriam, porventura, tido oportunidade de aprender uma grande lição: que isto de políticos é uma raça que por cá se queda há uns já valentes milhares de anos e que pelas medidas dos que já se finaram se tira a pinta aos de hoje e aos que mais tivermos de vir a sofrer. (Pensando bem, dada a cada vez maior decadência do ensino após o consulado da outra senhora, acho que nem que os alunos quisessem...) Back on track, já os ouço clamar: "Ah, mas então e o progresso da raça humana?" Certo é que já ninguém rasga as vestes como os Romanos, mas politicamente falando, o progresso resume-se à notavelmente célere aprendizagem de como capitalizar as novas tecnologias e desenvolvimentos em proveito próprio; digo: em proveito dos mais altos interesses do Estado. (Estou a esforçar-me por me actualizar com as novas referências semânticas...)

Um caso curioso que ilustra esta ingenuidade lusa passou-se precisamente com esses Romanos - que bem dizia o pequeno gaulês, e com alguma razão, que eram loucos. Deu-se isto lá por volta dos últimos cinco séculos antes do nascimento de Cristo na cidade de Roma. Na época era Roma uma República governada por um punhado de aristocratas e queixava-se a plebe (não lhe faltando a razão) que expulsara o último Rei para nada, visto que do poder prometido nem o cheiro. Ora o descontentamento deu em divórcio unilateral (e acha o governo que é progressista) quando o Senado elegeu para cônsul um senhor de elevada estirpe e igualmente elevado nariz: Appius Claudius Inregillensis. O que é o fizeram esses sábios romanos confrontados com as atitudes desse tiranozito empertigado? Mataram-no? Protestaram nas ruas? Deitaram fogo à cidade? Nada disso! Fizeram o que ficou conhecido para a história como: secessio plebis. Ou seja, toda a plebe (a esmagadora maioria da cidade claro está) abandonou Roma e acampou num monte ali perto, deixando os aristocratas para se governarem a eles mesmos. De génio! Claro está que conseguiram o que queriam e esse ano de 494a.C. viu a criação da magistratura do Tribuno da Plebe, cuja eleição dependia não do Senado mas do Populusque Romanus.É que isto de querer comer e não haver quem produza, transporte, venda e confeccione o repasto é coisa que deve ter alterado os mais altos interesses do Estado. E nem quero imaginar a desdita dos pobres senadores, que tiveram que ouvir as Julias, as Claudias, as Fabias e as Valerias em ataques apopléticos quando perceberam que as lojas estavam todas fechadas!

Ora como em equipa que joga bem não se mexe (algo que o Sr. Queiroz devia ter percebido antes de substituir o Hugo Almeida no funesto jogo de Terça), a plebe voltou a utilizar a mesma receita um punhado de vezes mais nas centúrias seguintes. Quando a necessidade assim o obrigava, lá se empacotava tudo muito bem e se ia passar uns dias de descanso ao campo à espera que os senhores de toga capitulassem da sua arrogância. Famosos ficaram os gerados pela recusa do Senado das Leges Duodecim Tabularum (449 a.C.) da Lex Canuleia (445 a.C.) ou da Lex Hortensia (287 a.C.). Ora com o tempo a plebe foi ganhando poder em Roma, sendo-lhe ultimamente abertas todas as magistraturas, pontificados e o assento no Senado. E já os ouço: "Ahah! Então não foi ingenuidade nenhuma! Deu resultado. Vamos todos organizar uma deslocação de Lisboa para o Monte da Caparica e ficamos lá à espera que pelas janelas dos gabinetes do Terreiro do Paço entrem ares de bom-senso e o governo tenha uma epifania!"

A questão é que nada mudou realmente. A plebe ficou possibilitada de concorrer nas eleições aos cargos públicos, de facto. Mas quem tinha os milhares de sestércios necessários para subornos e organização de jogos para conseguir assegurar uma eleição? Os ricos! Plebeus, mas ricos. Famílias que depressa se apressaram a integrar na aristocracia de linhagem, tanto por casamento como por compadrio político. E apesar do seu estatuto de plebeus, não se compadeceram mais das dificuldades da plebe-pé-descalça do que os seus colegas patrícios. A plebe viveu assim cinco séculos de ilusão de uma luta pela igualdade social. Para o final da República o nível de demagogia e aproveitamento desse conflito desencadeou décadas de guerras civis, até que surgiu vencedor Gaius Iulius Caeser Octavianus Augustus que acabou com a brincadeira republicana e deu a volta à coisa com um "L'Etat c'est moi!" muito mais subtil que o de Luís XIV. Foi de facto uma evolução do paradigma social algo comparável ao que aconteceu no século XIX como o novo-riquismo proporcionado pela revolução industrial. O príncipe italiano Di Lampedusa expôs a lógica subjacente de maneira brilhante na sua obra-prima O Leopardo (Il Gattopardo): "Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi!" (Se queremos que tudo fique na mesma é necessário que tudo mude!).

O que aprendemos hoje com os antigos? Iludam-se quanto quiserem com as falsas idolatrias e com as ideologias partidárias vãs e balofas que marcam o nosso espectro político da extrema esquerda à extrema direita. Por mais que tudo mude (entre todas as possíveis combinações de governo possíveis), tudo ficará sempre na mesma porque a ninguém interessa realmente que o paradigma do nacional porreirismo seja perturbado. Relembro que na votação na AR para o aumento dos valores não-justificados de financiamento das campanhas eleitorais apenas dois ou três deputados votaram contra. Em bom português: a m*da muda mas o cheiro é o mesmo. Os patrícios romanos sempre tinham algum sentido de estado e dever público; a nobreza medieval sempre era galante e honrada; a aristocracia da época moderna tinha o seu brilho, distinção e elegância; a burguesia saída da Revolução Industrial sempre começou por ser séria e comprometida. Agora isto!, esta degenerescência, este abastardamento que temos por classe dirigente? Isto é simplesmente, parafraseando Eça: "uma choldra ignóbil!".

Imagem: The Secession of the People to the Mons Sacer, engraved by B.Barloccini, 1849 (engraving)- cortesia de Fotobank

quarta-feira, 30 de junho de 2010

[sic]"On n'est qu'on-même hypocrites!"

Obrigado ao Marco Dias Rodrigues (Aprender, criticando) por me ter chamado a atenção para este vídeo! Um discurso brilhante por Cohn-Bendit e possivelmente uma das poucas vozes independentes que ainda clamam por justiça nas instituições políticas de hoje em dia. Uma análise extremamente interessante e que trás à luz da opinião pública uma perspectiva muito bem apanhada das relações económicas Europa-Grécia e a relação com o conflito cipriota. Vale a pena perder 5min a ouvir.

Finalmente um uso decente para as vuvuzelas!

Vejam os últimos minutos em que estes dois malucos fazem uma performance incrível do Bolero de Ravel. São sem dúvida alguma génios, que tornam estes instrumentos abjectos em algo quase tolerável... Será que conseguiam fazer o mesmo com algumas pessoas? Conhecia alguns sérios candidatos a este tratamento...

terça-feira, 29 de junho de 2010

Ele há coisas...

Há coisas que são no mínimo caricatas. Daquelas que contadas ninguém acredita. É que aposto que não é preciso ser génio nenhum para se dar a volta à situação de uma forma coerente. E, uma vez mais, tenham bom-senso gente! Dá vontade de dizer: isto só neste país. Leiam a petição aqui incluída e já agora assinem que a causa é meritória...

http://www.peticao.com.pt/encerramento-bnp
Petição Contra o Encerramento da BNP

No passado dia 8 de Junho de 2010 a direcção da Biblioteca Nacional de Portugal [BNP] anunciou que os serviços de Leitura Geral da Biblioteca encerrarão durante dez meses (de 15-11-2010 a 01-09-2011) e os Reservados durante cinco meses (01-04-2011 a 01-09-2011). Como cidadãos e utilizadores da BNP, embora conscientes das inequívocas vantagens inerentes à ampliação do edifício de depósitos da biblioteca, consideramos o planeamento dos trabalhos estipulado inaceitável e solicitamos que seja repensado.

O encerramento durante quase um ano de uma instituição que detém colecções sem alternativas (Secção de Reservados, espólios do Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, Secção de Periódicos por exemplo) é incompatível com o prosseguimento da actividade científica de largas dezenas de estudantes e investigadores que necessitam desse material.



A indisponibilização dos acervos da BNP comprometerá a viabilização de projectos em curso, muitos deles com financiamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior ou de outras instituições, e porá em causa o cumprimento de calendários e compromissos académicos estabelecidos. O encerramento de uma instituição como a Biblioteca Nacional teria, no mínimo, que ser publicamente comunicado com um ano de antecedência para que as várias partes envolvidas (universidades, instituições de financiamento, estudantes, investigadores) pudessem planear o seu trabalho em função desses dados. É inadmissível que uma determinação deste género seja comunicada apenas com cinco meses de antecedência.

Por outro lado, acreditamos que seja possível levar a cabo os trabalhos de transferência dos fundos de forma faseada, de modo a evitar um encerramento integral tão longo. Independentemente de existirem outras bibliotecas com Depósito Legal, é do conhecimento geral que para uma parte substancial do acervo bibliográfico e documental da BNP não existem alternativas nem em Lisboa nem em nenhuma outra biblioteca ou arquivo do país. Pelo que é absolutamente incompreensível que se proponha que este acervo único permaneça inacessível durante 10 meses.

Solicitamos pois que se proceda a uma reconsideração do plano de transferência, no sentido de:
1) se atrasar o encerramento da BNP para depois de Junho de 2011, para dar um mínimo de um ano de antecedência ao anúncio
2) fasear os trabalhos de modo a reduzir o tempo de encerramento integral dos referidos núcleos da BNP.

Lisboa, 22 de Junho de 2010

Chegou de Expresso porque ainda não há TGV

Chegou ao Expresso (que pessoalmente considero a publicação mais fidedigna da imprensa nacional) o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Numa reviravolta desconcertante, se não inesperada, o semanário converte-se à nova seita linguística endereçada pelos senhores de S.Bento. Não entendo a leveza de espírito com que o jornal publicou a sua decisão, nem como aceita tão cordialmente denominar os espectadores de um qualquer evento com um vocábulo que mais se aplicaria a um bandarilheiro de tourada: espetadores.

Embora entenda a necessidade de evolução de uma língua e a situação dos hífenes e outros detalhes que tais não me façam a menor confusão, não consigo ficar indiferente ao assassínio de palavras como acção, recepção, vector ou baptismo. É que talvez quem de competência se não tenha apercebido, mas embora os cês e pês destas palavras sejam mudos, não são inúteis. Servem para que, quando lemos estas palavras, abramos vogais que de outra forma se deveriam ler fechadas. Assim, lemos "áção" "recéção", "vétor" e "bátismo". Sem as consoantes mudas, passamos a fechar todas essas vogais. Boa sorte para quem quiser falar assim, eu não consigo nem quero.

Embora me escude no facto de a minha rejeição do Acordo Ortográfico se fundamentar em razões linguísticas (fonéticas, etimológicas...), interrogo-me se não serei simplesmente um conservador. Mas não tenho nada contra neologismos ou novas relações semânticas ou novas construções sintácticas, mas isto de mexerem na ortografia desta maneira irresponsável não me cai bem. Esta má disposição, à falta de alternativa que se me afigure, imputo-a ao bom senso.

Claro está que não se poderia esperar que os frequentadores dos Paços de S.Bento padecessem desta minha má-disposição. A lógica, o nexo e a coerência nunca figuraram na lista das suas preocupações; seria ingénuo esperá-lo agora. Esfaqueiam esse pobre coitado do bom-senso sempre que têm oportunidade, qual bandarilheiros, verdadeiros espetadores (sem "c"). Das últimas facadas a mais profunda deve ser aquela da construção de um comboio de alta velocidade entre duas capitais que não parte de uma nem chega à outra. Mas jubilemos, que isso tornou a nossa ligação de alta velocidade à Europa (como se não fossemos já parte desse continente) um passo mais próxima.

E nesses tempos áureos de prosperidade que nos trará o TGV, estas ideias peregrinas como a do Acordo já não precisarão de nos chegar de Expresso, que isso será coisa do passado.

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Dissonâncias d'Aquém e d'Além

Afigurou-se-me ser hoje dia tão bom como outro qualquer para reciclar este velho amigo. O Dissonâncias (I) foi companheiro fugaz de um período marcante da minha existência, os 17 anos. Limpei-lhe o pó, pus óleo nas dobradiças, lavei-lhe a fronte e vesti-o de novas roupagens. Tracei a tinta electrónica um novo nome que sendo talvez mais pomposo (o que não é necessariamente mau), me é também mais querido. D'Aquém o meu pathos, d'Além o dos outros. D'Este e d'Aquele Reinos vos contarei histórias do que lhes sucedeu a partir do dia de 29 de Junho de 2010.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

...

Apoderou-se de mim uma enorme vontade de escrever... Não sei o que faço... Limito-me a saborear o prazer de premir as teclas do teclado enquanto vejo as letras materializarem-se à minha frente construindo um modelo da estupidez do meu pensamento presente.

(Foco-me na estupidez do que escrevo, qual naufrágo desesperado agarrado estupidamente a um pequeno galho, numa tentativa de não me afundar na estupidez que me envolve. Se me afogar em alguma, ao menos é nesta, que é minha.)

Não sei que escreva; não tenho nada que escrever. Pareço louco, mas tenho direito a sê-lo. Mais não seja pela estupidez que me envolve. Ou por aquela em que me afogo, que já não sei se é a minha ou a dos outros. É tudo a mesma coisa e ao mesmo tempo é tão diferente.

Não disse nada. Mas se nada tinha que dizer, tudo está bem. Apenas queria escrever. Já escrevi. Vou embora.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

...de manhã...


Não, não sou uma aberração... Como a esmagadora maioria das pessoas normais, evito qualquer tipo de actividade cerebral pouco depois de acordar. Mas toda a regra tem excepção. E durante a sonolenta viagem que fazia a caminho da escola, lá semi-abri os olhos para que eles se enchessem duma inesperada beleza conseguida à custa do nevoeiro matinal, que mantinha o castelo, qual ilha, suspenso no alto sobre um mar de branco etéreo. E aquele sol tímido da manhã emprestava brilho ao conjunto e todas as gotas de água, suspensas no ar como que por magia, resplandeciam. E no horizonte distante, em contraste brutal e abrupto, reinavam as pacíficas trevas da noite onde o burburinho luminoso do despertar não chegara ainda. Voltei a fechar os olhos pelos escassos minutos que me restavam de viagem. Assim embalado pelo suave balanço do carro e envolvido pela aragem amena da sofagem, também algo dentro de mim exclamou, ao som delicioso do saxofone e da querida voz velha do roufenho Armstrong: "What a wonderful world!"

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

On being human: Truth

The pure and simple truth is rarely pure and never simple.

Oscar Wilde

Maybe that’s why we lie to each other. Like trolls from the fantastic stories of my childhood, who would kill you just to simplify things, we remorselessly kill truth in a vain attempt to simplify our lives. You lie to me. You’d rather tell me you were stuck in traffic than the pure and simple truth: you just bumped into that old friend of yours. Because to me that wouldn’t be as straightforward as that: you didn’t just bump into him. He was looking for you. Yes, I know he was your childhood sweetheart. Yes, I’d be jealous. You Know me. That, at least, is a pure truth. So you lie. You simplify. You never asked me if I wanted that, though.

Someone saw you speaking, and perhaps something else. Someone told me someone saw. It’s always like that. Then you just deny. To assume your mistakes was never easy to you. It wouldn’t seam a viable option to your pride. Well, honestly speaking, nor would it seam to mine. We argue. Inevitable. We hurt each other. Predictable. We split up. Foreseeable.

The truth would have been everything but simple to tell. I would never expect you to actually tell me the pure truth (I’ve never met someone capable of that). We both know all that. Even so, I demanded it pure and simple. Just the way you could never have done it. You understood my position, though, You would have done exactly the same thing. We both know that. Despite lying to you almost everyday (about your new haircut, your cooking, your lovely cousin, or an unimportant flirt at work), I still find myself in position to demand truth. And, to my amazement, you still find me in that position too.

Now we are apart. The exact way we swore countless times we would never be. Now I cry shamelessly. The exact way I swore myself countless times I would never do. Now you hang out with other guys just for the sake of forgetting. The exact way you swore yourself countless times you would never do. And nowadays, we live lying to ourselves pretending to be someone we are not. That is the pure and simple truth: lying is rarely pure and never simple.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

LONDRES – Tomo I: “À Descoberta”

Tenho medo de fazer isto. Mas já era altura de me libertar deste fardo. Afinal já passou o quê (?), um mês e tal? É, já é tempo de pôr por escrito aquilo que ando a adiar à muito. Tenho de agradecer à Filipa, à minha mais que querida companheira de viagem, por ter tomado esta iniciativa no seu blog. Eu sigo-lhe o exemplo. Afinal, os amigos servem para isto, para partilhar o bom e o mau que nos acontece na vida…E como poderia eu deixar de partilhar convosco a, sob todos os aspectos, melhor experiência da minha vida?

Foram apenas duas semanas dirão muitos. Eu respondo que vivi e aprendi mais nessas duas semanas do que muitos em todo o tempo que por cá andaram. O objectivo, pelo menos o oficial, era aprofundar o meu conhecimento de inglês. No fim, saí de lá a falar inglês ainda melhor, com um francês já aceitável, com mais noções de italiano e a saber dizer alguma coisa de alemão, pelo menos o mais necessário, como por exemplo: Du hast shön blond haar und fantastisch blau augen! Acreditem: serve para qualquer rapariga alemã! ;) Mas muito mais do que as matérias académicas foram as pessoas, as situações, as descobertas, a interacção. Foram 15 dias de descoberta de mim mesmo numa situação em que nunca antes me encontrara (mas não me importarei de voltar a encontrar): uma autonomia e uma independência fantásticas. E não pensem que foi só a falta de pais. Foi o tudo ser desconhecido: a cama, o lugar, as pessoas, as escola, os colegas, os professores… Dá-te uma liberdade quase completa. Afinal ninguém te conhece mesmo! Qual é o problema de declamar “Os Lusíadas” em alto e bom som no meio de Oxford Street? E Piccadilly Circus é um lugar tão bom como outro qualquer para aprender a dançar, desde a valsa ao cha cha cha! Quanto ao cantar, num coro cheio de harmonia e vozes melodiosas, todo os géneros musicais, desde Muse a Toni Carreira, no metro, bem, tirando uns olhares reprovadores de perto de 99% dos transeuntes, não houve nada de mais! Foram 15 dias de descoberta de pessoas completamente novas, mas do mais fascinante! Todas à sua maneira tinham algo de diferente para contar, mostrar ou ensinar. E não há maneira melhor de aprender do que entre pessoal jovem a rir às gargalhadas do pavão, dos torneios de ping-pong, das calinadas da Chio, dos estereótipos culturais ou da falta de habilidade de alguém, muito provavelmente eu, para comer com pauzinhos.

Foram 15 dias de aventura diária, de viagens de autocarro sem destino conhecido, de encontros menos recomendáveis às 3 da manhã, de quilómetros e quilómetros percorridos no meio daquela atmosfera citadina, atarefada, estimulante. 15 dias que souberam a pouco, mas pelos quais agradeço todos os dias.

Como respondia a todos aqueles que vinham ter comigo e perguntavam: “Então e Londres, como foi?”; é impossível sintetizar uma tal experiência em meia dúzia de palavras, e daí o “Tomo I” no título. A medida que me for recordando das experiências lá vividas vou-as publicando aqui neste meu canto dissonante. Não na esperança de que vocês as leiam todas, mas numa necessidade de libertação. Foi bom, foi óptimo, foi do melhor que já me aconteceu. Mas passou. E agora coisas há que requerem atenção e preciso de fechar este livro para abrir o próximo. Espero retoma-lo no próximo Verão (a França espera-nos Filipa!). Afinal, as histórias só têm um ponto final definitivo quando lho querem por.
E esta?…bem…esta terá de viver sem ele!

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Ocasos

Algarve, Via do Infante.

A direcção era Oeste.

O relógio marcava 9 da tarde (sim, da tarde, pois naqueles enormes dias solarengos de Julho podemos dar-nos a tais extravagâncias).

O Sol aproximava-se do término da sua jornada diária e as suas línguas de fogo e luz lambiam com indescritível provocação os cumes das serras do interior algarvio. Olhei-o de frente, sim, daquela maneira que não se deve porque faz mal aos olhos. Fascinou-me, prendeu-me. Numa atitude algo camaleónica mudava de cor: do seu característico amarelo relampejante, berrante até, foi enrubescendo, passando por todos os imagináveis tons de laranjas ou alaranjados. E estes seus caprichos contagiavam tudo em seu redor. A ponto de os escassos e etéreos farrapos de nuvens presentes naquele firmamento estival se incendiarem, como que de moto próprio, em tinturas de carmins apaixonados, rosas inocentes e púrpuras reais. E então, subitamente, o astro-rei começou a afundar-se por detrás das serras, como que procurando santuário por um qualquer crime chamejante cometido naquele dia. E como que envergonhado de toda a sua flagrante conspicuidade, ocultou-se numa questão de segundos. Para trás fica todo um trilho de réstias de luz que se confundiam e associavam num caleidoscópio de cores, único vestígio do aparente opróbrio do Grande Astro. Esperava assistir ao dissipar de toda aquele espectáculo até ao advento da penumbra vespertina em todos os seus azuis carregados de promessas de noite e escuridão.

Atónito fiquei, portanto, quando não muito depois, o Astro envergonhado espreitou de novo num dos cumes da serra. E tão subitamente quanto tinha desaparecido, voltou, em todo o seu esplendor, para reclamar à noite alguns instantes para o dia. Mas não conseguiu impor-se contra as leis naturais por muito, e apenas durante uns momentos fui eu capaz de gozar mais um pouco do calor dos seus raios na minha face. E assim, obedecendo contrariado aos imperativos naturais, voltou-se a afundar-se nas serranias algarvias com delongas quase fatalistas. Por cinco vezes se repetiu o fenómeno e não pude evitar pensar na sua singularidade. Aquela sucessão de “micro-dias” e “micro-noites” em espaços de tempo inconcebíveis fez-me pensar no futuro.

Onde estarei eu daqui a uns quantos ocasos?

(Algures no príncipio de Agosto de 2007)

Carta de Amor de um Biólogo

Li isto numa página de Biologia quando andei a pesquisar o Google já não sei bem porquê. Isto é principalmente para ti Ana que só gozas com os biólogos! Have fun!

«Você tem uma nomenclatura muito linda, mas saiba que eu a amaria mesmo que você se chamasse Ergastoplasma... Sabe que quando a vejo, minhas mitocôndrias entram em fermentação, a meiose acelera - se e os meus gâmetas ficam todos assanhados? É verdade porque você tem um fenótipo tão lindo que tenho uma tese de que o seu código genético foi sequenciado por um artista muito inspirado, em plena geração espontânea.
Quando você surge, em movimentos amibóides, bela, túrgida e charmosa, começo a sentir os efeitos das reações físico-químicas no meu organismo. O seu tropismo em relação a mim afecta o córtex do meu sistema sensorial! Ao tocar na sua celulósica mão, os nossos glicocálix encontram-se. E se os seus olhos, perdidos, semelhantes a ocelos de planária, não se cansam de me fixar, é porque a minha antena está ligada a você. A sua cetácea presença mexe com as minhas enzimas, hormonas, neurotransmissores, até a minha cadeia respiratória já não funciona bem , nem mesmo para a coordenação do meu trémulo tríceps. Do meu frontal escorre o que restou de secreção sudorípara. As suas ferormonas tiram-me realmente da homeostase. os seus cílios e pillos causam-me flagelos impensáveis. Palpitações sistólicas rebentam o meu pericárdio.
Ah, querida, e quando quero repôr as perdas metabólicas e a levo a uma pastelaria para posicionar os nossos níveis tróficos, a única gelatina que nos interessa é aquela biomassa saborosa a que chamamos meio de cultura! Mas apesar da nossa relação harmónica em franca evolução, ultimamente você está num estado de isolamento do que foi a nossa protoplasmática simbiose. Sabe, se você continuar tratando-me com tanto acaso, vou me sentir menos que um insecto, um verme! Você dá mais atenção às suas amigas, aquela tal de Drosóphila, à Taenia, a quem, por sinal, nunca fui apresentado, do que a mim... E quem é esse tal de Rhesus, hein? Ah meu Deus! Será que estou com complexo de Golgi? Devo estar entrando naquele ciclo maldito - o ciclo de Krebs... e se esse processo selectivo continuar sou capaz de cometer uma loucura, uma apoptose.
Por favor, não me trate assim de forma virulenta, feito uma amiba ou um "Cavia porcellus porcellus", pois a estes sei que você dedica apenas olhares científicos e sem paixão. Eu não sou uma cobaia de laboratório. Eu não bacilo nem quando fico como um vibrião colérico. Espero que você deduza que o meu sonho é passear abraçadinho consigo igual a um carrapato, num lindo dia de sol, em Galápagos, dizendo para mim mesmo: Cromossomos felizes!"»