Hoje de manhã (dada a hora, ontem para os mais escrupulosos), lá fui tomar a minha bica matinal à pastelaria do largo onde habito. Cliente que sou da casa há anos, lá fui recebido com um sorriso e um enérgico bom dia de quem trabalhava já desde as 6h da manhã. Esbocei um meio-sorriso e grunhi um bom-dia que não enganava ninguém. Eram 11h da manhã e acabava de acordar. Uma das moças do café, que me servira no dia anterior, indagou com piedade se sempre tinha finalmente dormido. É que sabia a moça, por uma outra casual conversa entre um chávena cheia e uma chávena vazia no dia anterior, que eu havia feito uma directa para estudar. Lá lhe confidenciei que tinha despachado tudo e que na última noite me desforra a bom desforrar e dormira 12h. Não sei bem como, entre uma lamuria e o tempo, foi a conversa parar à vida de funcionário público. Fez-se a devida ressalva que não se falava dos profissionais liberais ou dos homens do lixo, era mesmo daquele funcionário, que tem um emprego e recebe um vencimentozinho.
Dizia-me a moça que desses conhecia muitos que iam lá ao café todos os dias. (Vivo bem no coração de Lisboa). Que sabia, por conversas que não podia deixar de ouvir,que picavam o ponto lá no departamento ou repartição ou o que fosse e iam ali para o café cavaquear animadamente das 9h às 9h30. Que lá voltavam para almoçar e se quedavam habitualmente 2 horas no repasto. E sabia que despegavam do emprego cedo, que lá por essas 4h30 passam a levantar encomendas para levarem para casa. "Têm uma rica vida, é o que é". No meu último golo de café dizia-me ela: "Sabe menino, a mim o que me custa é estar aqui das 6h às 17h, receber uma miséria da qual me tiram quase metade para pagar ordenados a essa gente e ainda, vendo o que vejo, ter de os ouvir queixarem-se-me de que andam sempre tão cansados...". Soubessem eles o que é trabalhar, remato eu com um encolher de ombros que é a personificação do fado luso.
Suspiro eu, suspiro ela. Então até amanhã. Até amanhã menino.
Contradições, ambiguidades, paradoxos, hesitações, antinomias, incertezas, erros, equívocos, enganos... disto é feito o mundo que me rodeia assim como eu mesmo...no fundo, não passamos de acordes dissonantes numa monumental mas desarmoniosa sinfonia...aqui vão apenas algumas "notas" d'aquém e d'além minh'alma para ajudar ao todo...
domingo, 11 de setembro de 2011
sábado, 10 de setembro de 2011
Frases que valem a pena IV
Por Ricardo Reis, no The Portuguese Economy, sobre as hesitações nos cortes da TSU em comparação com o corte da payroll tax nos EUA em cerca de 50%:
"In the land of small government, it seems that when it wants to, the government can do way more than in the land of "Estado omnipresente". Not so much of a contradiction, when you think about it."
"In the land of small government, it seems that when it wants to, the government can do way more than in the land of "Estado omnipresente". Not so much of a contradiction, when you think about it."
D'Além Romantismo: O peso da palavra
I somethimes hold it half a sin
To put in words th grief I feel:
For words, like nature, half reveal
And half conceal the soul within.
In Memoriam A.H.H, de Alfred, Lord Tennyson.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
D'Além Economia Globalizada: Guerras de Divisas
Um artigo (Um primeiro tiro na Guerra de Divisas) na secção de Economia do Expresso on-line despoletou-me a curiosidade e lá fui, no meu papel de leigo no mundo da finança, dedicar-me a essa nobre arte de aprender. Os desafios de uma economia globalizada são sem dúvida extraordinários. Ademais, quando ajuntamos à equação o paradigma da situação político-social da época moderna, o nível de complexidade gerado é assombroso. Em boa verdade, o que já não existe nestes nossos tempos é precisamente um paradigma, quanto mais um arquétipo ou um ideal. Vivemos cada vez mais numa sociedade pautada, a todos os níveis, pela mudança cada vez mais veloz, pela evolução cada vez mais rápida da realidade. Para os nossos pobres cérebros (cujas bases arquitecturais se formaram à centenas de milhares de anos atrás), este novo padrão da sociedade contemporânea, que é, por assim dizer, a falta desse mesmo padrão, apenas poderá ser percepcionado como instabilidade e volatilidade.
Ora se há domínio da sociedade moderna que se habitou desde o século XVII a viver sem a estabilidade que o comum dos mortais almeja é a Finança. Os mercados são por definição voláteis e imprevisíveis. Mas até mesmo os desafios desta nova era pós-11-de-Setembro se estão a revelar como um pouco mais do que os mercados financeiros conseguem digerir. A globalização da Economia iniciada pelos portugueses nessa longínqua centúria de Quinhentos, em que o anos ainda eram da Graça do Senhor, apenas se consubstanciou verdadeiramente no pós-Segunda-Grande-Guerra. Ou seja, quando o mundo não-Europeu-ou-Americano foi evoluindo de um papel de subserviência ou clientelismo económico para o de um parceiro de facto. É, em suma, uma realidade recente.
O ovo de Colombo desta nova realidade é que perturbações num dos elementos do sistema se irão repercutir gravemente no sistema como um todo, afectando o seu normal funcionamento. Até há bem poucos anos o Mundo vivia na dicotomia Mundo Desenvolvido e Mundo Subdesenvolvido. O estalar do verniz do modelo de Estado Social dos desenvolvidos países Europeus em concomitância com a surgimento das economias "em vias de desenvolvimento" (leia-se BRICS) apresenta desafios aos modelos e convicções estabelecidas nos mercados financeiros. Os capitais estão a fugir do Euro e a procurar refúgios. Os investidores deixaram de considerar a zona-Euro (um dos três grandes motores económicos do mundo) como um local seguro para investir o seu dinheiro e estão a transferi-lo para outros activos. Daí os crashes bolsistas na Europa (que acabam por arrastar e contagiar as demais praças, lá está a globalização outra vez) e a desvalorização da nossa divisa.
E para onde vai o dinheiro? O destino é um de dois: para os demais activos convencionais (entre os quais costumavam estar os europeus), leia-se ouro, EUA, Japão, Suíça, Dinamarca, Noruega e Suécia; ou para os considerados mais arriscados, mas ainda assim preferíveis ao lodaçal que se transformou o Velho Mundo, países em vias de desenvolvimento, sempre ávidos de investimento. A economia mundial não cresce a bom crescer no Mundo Desenvolvido desde a época áurea dos anos 90. O arrefecimento do comércio mundial, que nem os à-primeira-vista-espetaculares crescimentos do PIB de países em desenvolvimento parecem já conseguir contrapor, está a dificultar a retomada económica tanto na já fragilizada zona-Euro, como nos EUA e demais países Ocidentais.
Para estes países (EUA, Japão, Suíça, Dinamarca, Noruega e Suécia) a fuga de capitais da zona-Euro para os seus países está a afigurar-se como um entrave ao desenvolvimento. Como é que a entrada de capital num país pode refrear o seu crescimento económico? Parece um non sequitur, mas não é. A transferência de capitais para fora da zona-Euro implica que esses capitais vão passar para divisas diferentes, ou seja, na prática implica que se está a vender muitos euros para se comprarem dólares, yens, francos suíços e coroas nórdicas. Ora das leis da oferta e da procura que até um leigo como eu conhece, o mercado tem tendencialmente evoluído no sentido de desvalorizar o euro e valorizar as demais divisas.
O problema para os países Ocidentais fora da zona-Euro é que esta mesma zona é (ainda) um dos maiores mercados da Economia globalizada e praceiro comercial major de todas essas nações. Ora num contexto de crise económica generalizada interessa a toda a gente corrigir o equilíbrio da balança comercial aumentando as exportações. E é precisamente aqui que a valorização dessas divisas entrava o crescimento dessas economias: encarece-lhes as exportações. Com as taxas de juro mantidas a níveis baixíssimos e a margem de manobra fiscal praticamente esgotada nos países desenvolvidos, não restam muito mais opções para intervir no mercado de capitais do que as correcções artificiais de câmbio de moeda.
Situação semelhante vivem os países em vias de desenvolvimento: como Turquia, Rússia ou Brasil. A valorização das moedas permite um crescimento mais moderado da economia de consumo interna mas pode minar por completo o crescimento económico ao retirar competitividade às exportações. Sobre como esses países estão a lidar com a situação deixo-vos um peça informativa do Financial Times (daquelas que não se encontram nos telejornais de cá): link. A actuação faz-se sempre em mecanismos com efeitos indirectos como as taxas de juro, mas, como referi acima começa a escassear o espaço de manobra. São as acções directas sobre os câmbios de moeda, sem apelo nem agravo dos mercados, que se apelidam de actos de guerra de divisa.
Abriu-se a excepção no início deste ano com os acontecimentos catastróficos ocorridos no Japão. Houve naturalmente um gigantesco fluxo de capitais para o país no sentido de encetar a reconstrução. Ou seja, houve muita gente a comprar yens, sobrevalorizando repentina e dramaticamente o yen e ameaçando asfixiar a economia exportadora japonesa, prenunciando uma grave recessão económica. Sob a concertação da Reserva Federal Norte-Americana lá houve uma venda gigantesca dos yens em reserva nos principais Bancos Centrais, de forma a aliviar o mercado. Contudo a pressão sobre o yen recomeçou devido à fuga de capitais da Europa (à laia de exemplo: 500 mil milhões de euros só para os EUA, só nos últimos 6 meses).
Neste contexto, surge então a situação noticiada pelo Expresso no artigo supra-mencionado. O Banco Central Suíço (SNB) decidiu de surpresa impor um tecto à valorização do franco suíço e anunciou que se recusaria a transaccionar o câmbio do franco suíço acima dos 0,83€ por cada franco, ou abaixo dos 1,20FrS por cada euro. O franco suíço valorizou mais de 30% face ao euro nos últimos dois anos. Especula-se se será o primeiro movimento de um Guerra de Divisas, pois facilmente este tipo de decisões unilaterais e sem concertação internacional desencadeiam espirais de respostas que agravam o problema inicial em vez de o resolverem. Como o expôs um analista da HSBC ao Financial Times:
"Actions like this simply push the problem elsewhere (...) and it threatens a situation where every central bank is trying to weaken its currency"
A Reserva Federal aliviou os ânimos admitindo que a situação da Suíça era sui generis, devido à sua posição geo-estratégica bem no seio da Europa. E de facto os dados do crescimento do PIB suíço para este ano já foram revistos em cerca de metade dos 1,9% inicialmente previstos para 0,8%. Ademais, o SNB já perdeu mais de 30 mil milhões no valor dos seus activos só em 2010, pois a maioria dos seus investimentos são em euros e dolares, que perderam valor face ao franco suíço.
Receia-se que outros países cujas divisas se têm valorizado (Japão e Brasil) possam vir a tomar atitudes do género na tentativa de evitarem a deflação no mercado interno e a perda de competitividade no mercado externo. Afastados para já da contenda das divisas parece estar o par EUA/China, cuja relação de amor-ódio tanta tinta fez correr em finais do ano passado. Agradeçamos à globalização, que não é puramente económica, mas também social: os novos hábitos de consumo da população chinesa têm inflacionado o mercado e impedido a desvalorização do Renminbi (ou Yuan).
Quem não se pode queixar da sua valorização nos mercados é o tradicional refúgio não-divisa: o ouro. Mas vendo a onça acima dos 1800 dólares, algo me diz que quem se vai queixar são os investidores quando a bolha aurífera rebentar. As correrias desenfreadas nos mercados parece-me a mim que nunca são boas. Também as tulipas já valeram mais que o ouro e vejam lá agora.
Ora se há domínio da sociedade moderna que se habitou desde o século XVII a viver sem a estabilidade que o comum dos mortais almeja é a Finança. Os mercados são por definição voláteis e imprevisíveis. Mas até mesmo os desafios desta nova era pós-11-de-Setembro se estão a revelar como um pouco mais do que os mercados financeiros conseguem digerir. A globalização da Economia iniciada pelos portugueses nessa longínqua centúria de Quinhentos, em que o anos ainda eram da Graça do Senhor, apenas se consubstanciou verdadeiramente no pós-Segunda-Grande-Guerra. Ou seja, quando o mundo não-Europeu-ou-Americano foi evoluindo de um papel de subserviência ou clientelismo económico para o de um parceiro de facto. É, em suma, uma realidade recente.
O ovo de Colombo desta nova realidade é que perturbações num dos elementos do sistema se irão repercutir gravemente no sistema como um todo, afectando o seu normal funcionamento. Até há bem poucos anos o Mundo vivia na dicotomia Mundo Desenvolvido e Mundo Subdesenvolvido. O estalar do verniz do modelo de Estado Social dos desenvolvidos países Europeus em concomitância com a surgimento das economias "em vias de desenvolvimento" (leia-se BRICS) apresenta desafios aos modelos e convicções estabelecidas nos mercados financeiros. Os capitais estão a fugir do Euro e a procurar refúgios. Os investidores deixaram de considerar a zona-Euro (um dos três grandes motores económicos do mundo) como um local seguro para investir o seu dinheiro e estão a transferi-lo para outros activos. Daí os crashes bolsistas na Europa (que acabam por arrastar e contagiar as demais praças, lá está a globalização outra vez) e a desvalorização da nossa divisa.
E para onde vai o dinheiro? O destino é um de dois: para os demais activos convencionais (entre os quais costumavam estar os europeus), leia-se ouro, EUA, Japão, Suíça, Dinamarca, Noruega e Suécia; ou para os considerados mais arriscados, mas ainda assim preferíveis ao lodaçal que se transformou o Velho Mundo, países em vias de desenvolvimento, sempre ávidos de investimento. A economia mundial não cresce a bom crescer no Mundo Desenvolvido desde a época áurea dos anos 90. O arrefecimento do comércio mundial, que nem os à-primeira-vista-espetaculares crescimentos do PIB de países em desenvolvimento parecem já conseguir contrapor, está a dificultar a retomada económica tanto na já fragilizada zona-Euro, como nos EUA e demais países Ocidentais.
Para estes países (EUA, Japão, Suíça, Dinamarca, Noruega e Suécia) a fuga de capitais da zona-Euro para os seus países está a afigurar-se como um entrave ao desenvolvimento. Como é que a entrada de capital num país pode refrear o seu crescimento económico? Parece um non sequitur, mas não é. A transferência de capitais para fora da zona-Euro implica que esses capitais vão passar para divisas diferentes, ou seja, na prática implica que se está a vender muitos euros para se comprarem dólares, yens, francos suíços e coroas nórdicas. Ora das leis da oferta e da procura que até um leigo como eu conhece, o mercado tem tendencialmente evoluído no sentido de desvalorizar o euro e valorizar as demais divisas.
O problema para os países Ocidentais fora da zona-Euro é que esta mesma zona é (ainda) um dos maiores mercados da Economia globalizada e praceiro comercial major de todas essas nações. Ora num contexto de crise económica generalizada interessa a toda a gente corrigir o equilíbrio da balança comercial aumentando as exportações. E é precisamente aqui que a valorização dessas divisas entrava o crescimento dessas economias: encarece-lhes as exportações. Com as taxas de juro mantidas a níveis baixíssimos e a margem de manobra fiscal praticamente esgotada nos países desenvolvidos, não restam muito mais opções para intervir no mercado de capitais do que as correcções artificiais de câmbio de moeda.
Situação semelhante vivem os países em vias de desenvolvimento: como Turquia, Rússia ou Brasil. A valorização das moedas permite um crescimento mais moderado da economia de consumo interna mas pode minar por completo o crescimento económico ao retirar competitividade às exportações. Sobre como esses países estão a lidar com a situação deixo-vos um peça informativa do Financial Times (daquelas que não se encontram nos telejornais de cá): link. A actuação faz-se sempre em mecanismos com efeitos indirectos como as taxas de juro, mas, como referi acima começa a escassear o espaço de manobra. São as acções directas sobre os câmbios de moeda, sem apelo nem agravo dos mercados, que se apelidam de actos de guerra de divisa.
Abriu-se a excepção no início deste ano com os acontecimentos catastróficos ocorridos no Japão. Houve naturalmente um gigantesco fluxo de capitais para o país no sentido de encetar a reconstrução. Ou seja, houve muita gente a comprar yens, sobrevalorizando repentina e dramaticamente o yen e ameaçando asfixiar a economia exportadora japonesa, prenunciando uma grave recessão económica. Sob a concertação da Reserva Federal Norte-Americana lá houve uma venda gigantesca dos yens em reserva nos principais Bancos Centrais, de forma a aliviar o mercado. Contudo a pressão sobre o yen recomeçou devido à fuga de capitais da Europa (à laia de exemplo: 500 mil milhões de euros só para os EUA, só nos últimos 6 meses).
Neste contexto, surge então a situação noticiada pelo Expresso no artigo supra-mencionado. O Banco Central Suíço (SNB) decidiu de surpresa impor um tecto à valorização do franco suíço e anunciou que se recusaria a transaccionar o câmbio do franco suíço acima dos 0,83€ por cada franco, ou abaixo dos 1,20FrS por cada euro. O franco suíço valorizou mais de 30% face ao euro nos últimos dois anos. Especula-se se será o primeiro movimento de um Guerra de Divisas, pois facilmente este tipo de decisões unilaterais e sem concertação internacional desencadeiam espirais de respostas que agravam o problema inicial em vez de o resolverem. Como o expôs um analista da HSBC ao Financial Times:
"Actions like this simply push the problem elsewhere (...) and it threatens a situation where every central bank is trying to weaken its currency"
A Reserva Federal aliviou os ânimos admitindo que a situação da Suíça era sui generis, devido à sua posição geo-estratégica bem no seio da Europa. E de facto os dados do crescimento do PIB suíço para este ano já foram revistos em cerca de metade dos 1,9% inicialmente previstos para 0,8%. Ademais, o SNB já perdeu mais de 30 mil milhões no valor dos seus activos só em 2010, pois a maioria dos seus investimentos são em euros e dolares, que perderam valor face ao franco suíço.
Receia-se que outros países cujas divisas se têm valorizado (Japão e Brasil) possam vir a tomar atitudes do género na tentativa de evitarem a deflação no mercado interno e a perda de competitividade no mercado externo. Afastados para já da contenda das divisas parece estar o par EUA/China, cuja relação de amor-ódio tanta tinta fez correr em finais do ano passado. Agradeçamos à globalização, que não é puramente económica, mas também social: os novos hábitos de consumo da população chinesa têm inflacionado o mercado e impedido a desvalorização do Renminbi (ou Yuan).
Quem não se pode queixar da sua valorização nos mercados é o tradicional refúgio não-divisa: o ouro. Mas vendo a onça acima dos 1800 dólares, algo me diz que quem se vai queixar são os investidores quando a bolha aurífera rebentar. As correrias desenfreadas nos mercados parece-me a mim que nunca são boas. Também as tulipas já valeram mais que o ouro e vejam lá agora.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
terça-feira, 5 de abril de 2011
Conversas de vão de escada
Elegeram o limbo entre o privado e o público como paradigma da sua relação e diálogos. Tal é consubstanciado pelo local privilegiado por ambos para a interacção: o patamar do vão de escada. Local que é público e para o qual dão os apartamentos que habitam, afigurando-se então como limite da privacidade destes vizinhos de patamar. Lugar que, graças à tradição de deixar as portas de rua entreabertas enquanto debatem, ganha um ambiente que cristaliza a indefinição do nível de intimidade que consentem àquela relação.
Seguem quase sempre uma dialética hengeliana, talvez por acaso, talvez por princípio dialético, talvez por medo de dar demasiado de si mesmo perseverando numa antítese reveladora. O debate nunca se esgota, pois para aqueles que se deleitam com a senda da compreensão dos vários Universos (do átomo, do Homem, da sociedade e, em última instância, da mente), não haverá nunca saciedade.
Os ponteiros do relógio avançam inexoravelmente na sua cadência ritmada de precisão suíça e pontualidade britânica. Alguma palavra, gesto ou omissão gera, por uma qualquer via neuronal complexa e além do entendimento ou consciência de ambos, a noção de que é necessário abandonar os prazeres abstractos e metafísicos, pois além d’aquele vão de escada a vida espera. Invariavelmente essa noção surge-lhe a ela.
Ele aprendeu a ler-lhe a expressão e adivinha-a mal esta se instala na sua mente. Aprendeu a não duvidar do cariz imperioso com que tal sensação se aloja no consciente dela e respeita-o, aquiescendo sem qualquer óbice ao término da conversação. Mas no íntimo não o entende; porque não o sente. Sente, ao invés, uma vontade de prolongar o momento ad infinitum. Não sabe explicar porquê e não se perde em divagações.
Deseja boa noite de forma cortês, retira-se para lá do vão de porta e, lançando ainda uma qualquer despedida, empurra então a contragosto a barreira física que o separa da rua. E dela. A luz escapar-se para dentro das casas e, no agora sombrio patamar, o eco distante das suas ideias, sonhos e utopias dispersa-se no silêncio tranquilo da noite que chegou.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Frases que valem a pena III
Dos poucos prazeres simples da vida, um dos que mais aprecio é ver sob meus olhos impresso o meu estado de espírito nos devaneios de outrem. Há um qualquer partilhar, uma qualquer proximidade nisso. Mas mais importante, há um cristalizar, um definir, um irremediável concretizar de um, até então, etéreo e difuso estado d'alma. Creio que há algo de catársico em tudo isso...
"Se a vida é isto, aceitemo-la corajosamente como ela é, e avante! Aprenda-se a ser desgraçado, visto que é essa a mais segura maneira de se ser feliz!"
in O Mistério da Estrada de Sintra, Eça de Queiróz e Ramalho Ortigão
"Se a vida é isto, aceitemo-la corajosamente como ela é, e avante! Aprenda-se a ser desgraçado, visto que é essa a mais segura maneira de se ser feliz!"
in O Mistério da Estrada de Sintra, Eça de Queiróz e Ramalho Ortigão
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
D'Aquém Minh'alma: À tona d'água
À tona d'água
Flutuo em lânguido olvido
D'ali e d'além esquecido
Em mim, marasmo momento;
Mergulho em mar calmo e lento.
Fluem as águas salgadas
Em leito ondulante tornadas.
Sobre elas medito suspenso
Que estou entre mim e o imenso.
Oscilo qual pêndulo d'horas
Há muito perdidas. D'aquém e
D'além venho em vagas, vãs horas
Sentidas; balanço perdido.
Perpétua procura pedante
De mim malograda. Perpétua
Minh'alma perdida entre mares
Por fátuo fogo inflamada.
Aqui desencontro-me leve,
Vagueio imerso em fluxo
Corrente sem 'spaço, sem tempo,
Em límpido líquido, livre
De mim e do mais que é nada.
Aqui fico em 'spera qu'engenho
De corpo ou mente; que a ponte,
Eflúvio de louco ou dolente,
Me leve d'aquém a minh'alma.
31 de Agosto de 2010
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Frases que valem a pena II
via: O Cachimbo de Magrite
Visconde Bolingbroke (1738)
The iniquity of all the principal men in any community, of kings and ministers especially, does not consist alone in the crimes they commit, and in the immediate consequences of these crimes they commit; and, therefore, their guilt is not to be measured by these alone. Such men sin against posterity, as well as against their own age; and when the consequences of their crimes are over, the consequences of their example remain.
Visconde Bolingbroke (1738)
domingo, 4 de julho de 2010
Omnia vincit amor ou o sonho de uma noite de Verão
3 de Julho. 22h00. Largo de São Carlos, Lisboa. Romeu e Julieta, Tchaikovsky.
O murmúrio declinou e cedeu. O silêncio quente de Julho inundava o largo já apinhado de rostos expectantes. O universo sustinha-se em compasso de espera. Soaram ténues e diáfanos os primeiros acordes na noite luminosa de Estio. Delicados e oprimidos ainda pelo calor da expectativa silenciosa. Sob comando magistral, outros acordes e tons se vieram sobrepor aos primeiros, ampliando-os, enriquecendo-os paulatinamente. As harmonias cruzaram-se, entrelaçaram-se, fundiram-se em arabescos fluidos e etéreos. Teceram-se no ar quente as tramas e desditas do famigerado casal de
Verona; num caleidoscópio ardente em constante metamorfose, que não olvidava a sua génese, antes a engrandecia, multiplicava e transmutava em outras cores consubstanciais à primeira. Brotou assim entre arco e corda, entre lábios e metal, um Amor quente que dimanou pelos ares contagiando as orbes celestes. Os olhos enamorados perfulgiam na assistência, na dama à varanda e no firmamento, fazendo recuar a noite face à força avassaladora deste Amor. Agigantou-se, alimentando-se da sua própria vitalidade ardente, da sua crença contumaz na sua imortalidade. As suas reverberações cada vez mais intensas, impetuosas e inflamadas propagavam-se aos corações e a todo o universo. Os arrepios desciam pela coluna em frenesim incontrolável, despoletados pela violência fervorosa com que os arcos acariciavam as cordas. E subitamente a morte. Qual trovão no denso ar estival, a tudo põe fim. Inexorável, despiedada, atroz. Dos lamentos fúnebres renasceram em crescendo os acordes daquele Amor imperecível. Força vital inextinguível, que noutra tonalidade, noutra cor, noutra dimensão se ergueu sobre o seu carrasco, glorioso e triunfante. Rindo da morte em vibratos e crescendos, qual Otelo, roubando algo a quem tudo lhe roubara. Ressurrecto, não julgou nem puros nem pecadores; antes a todos afagou em acordes que se perderam em fragrâncias rubras e radiâncias oloríferas. Os tons esvaeceram-se e o encanto desfez-se. Comigo ficou o sonho de uma noite de Verão.
"Did my heart love till now ? Forswear it, sight!, For I ne'er saw true beauty till this night"
O murmúrio declinou e cedeu. O silêncio quente de Julho inundava o largo já apinhado de rostos expectantes. O universo sustinha-se em compasso de espera. Soaram ténues e diáfanos os primeiros acordes na noite luminosa de Estio. Delicados e oprimidos ainda pelo calor da expectativa silenciosa. Sob comando magistral, outros acordes e tons se vieram sobrepor aos primeiros, ampliando-os, enriquecendo-os paulatinamente. As harmonias cruzaram-se, entrelaçaram-se, fundiram-se em arabescos fluidos e etéreos. Teceram-se no ar quente as tramas e desditas do famigerado casal de
Verona; num caleidoscópio ardente em constante metamorfose, que não olvidava a sua génese, antes a engrandecia, multiplicava e transmutava em outras cores consubstanciais à primeira. Brotou assim entre arco e corda, entre lábios e metal, um Amor quente que dimanou pelos ares contagiando as orbes celestes. Os olhos enamorados perfulgiam na assistência, na dama à varanda e no firmamento, fazendo recuar a noite face à força avassaladora deste Amor. Agigantou-se, alimentando-se da sua própria vitalidade ardente, da sua crença contumaz na sua imortalidade. As suas reverberações cada vez mais intensas, impetuosas e inflamadas propagavam-se aos corações e a todo o universo. Os arrepios desciam pela coluna em frenesim incontrolável, despoletados pela violência fervorosa com que os arcos acariciavam as cordas. E subitamente a morte. Qual trovão no denso ar estival, a tudo põe fim. Inexorável, despiedada, atroz. Dos lamentos fúnebres renasceram em crescendo os acordes daquele Amor imperecível. Força vital inextinguível, que noutra tonalidade, noutra cor, noutra dimensão se ergueu sobre o seu carrasco, glorioso e triunfante. Rindo da morte em vibratos e crescendos, qual Otelo, roubando algo a quem tudo lhe roubara. Ressurrecto, não julgou nem puros nem pecadores; antes a todos afagou em acordes que se perderam em fragrâncias rubras e radiâncias oloríferas. Os tons esvaeceram-se e o encanto desfez-se. Comigo ficou o sonho de uma noite de Verão.
"Did my heart love till now ? Forswear it, sight!, For I ne'er saw true beauty till this night"
sábado, 3 de julho de 2010
D'Aquém: a Alegria
Numa alegre reunião, subiu Alegre alegremente ao palco para nos brindar com mais uma tirada de alegre humor:
"Não quero na Presidência alguém que tenha a superstição dos mercados"
O senhor Alegre depois de tanta convivência com o senhor de Sousa ganhou o gosto a criar jogos de ilusão - como o recente de que os nossos níveis de desemprego estão em linha com a Europa. O senhor Alegre talvez me queira convencer que o 1% que estamos a pagar a mais de IVA desde anteontem, ou o próprio desemprego que não desce, ou a subia dos juros da dívida pública também são todos superstições e mistificações.
O senhor Alegre que continue a escrever trovas à Bandarra e não venha todo néscio e estulto dizer que não percebe nada de Economia para de seguida nos presentear com pérolas destas. Fique-se com o reconhecimento de que de facto de Economia nada percebe e tenha um bom dia.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
D'Além China: colonialismo
Por estes dias chamou a imprensa internacional de desvario colonialista à novela da golden share da PT. Polémicas aqui do lodaçal Luso à parte, o que eu acho curioso é que essa mesma imprensa internacional não apelida assim tão cabalmente de colonialismo algo que muito mais flagrantemente o é; por exemplo: a pressão do Estado Chinês nas províncias do interior para onde faz deslocar milhões de chineses Hans e onde marginaliza as culturas locais.
A Amnistia Internacional denuncia a situação de Xinjiang, onde o ano passado houve centenas de mortes em confrontos étnicos.
A Amnistia Internacional denuncia a situação de Xinjiang, onde o ano passado houve centenas de mortes em confrontos étnicos.
D'Além Macedónia: Jihad na Europa
Os relatos de actos violentos por parte do movimento Wahabi crescem pelos Balcãs em número e ousadia. Desde que soldados extremistas sauditas se vieram instalar nos Balcãs, durante a conturbada década de '90, que uma rede defensora do fundamentalismo islâmico tem crescido na região. Surpreendentemente, as principais vítimas não têm sido as populações cristã e ortodoxa (maioritárias em muitos estados da região), mas sim os islâmicos moderados. O mais recente aconteceu hoje na Macedónia, como relata o AdnKronos Internacional.
É uma estratégia corriqueira dos fundamentalistas, estes ataques às facções moderadas, incutindo um clima de medo, que estas são impotentes, na sua moderação, de combaterem. Uma perspectiva do modus operandi dos fundamentalistas muitas vezes desconhecida ou propositadamente ignorada no Ocidente.
Um outro na mesma linha de acção ocorrido hoje teve lugar em Lahore, no Paquistão, matando 50 pessoas, como nos relata a Foreign Policy.
De lamentar é falta de interesse da opinião pública Europeia em relação a problemas em estado embrionário. Quando há centenas de mortes (Iraque), manifestações gigantescas (Irão) ou golpes militares sangrentos (Bangladesh) isso é notícia. Choca e dá audiências. Não digo que o fundamentalismo nos Balcãs vá atingir as mesmas proporções que no Médio Oriente, mas é um fenómeno em franco crescimento e poucos lhe dão atenção. O problema está aqui, à porta da Europa e alguma coisa se deveria fazer. Quantos serão precisos morrer antes que isso aconteça?
É uma estratégia corriqueira dos fundamentalistas, estes ataques às facções moderadas, incutindo um clima de medo, que estas são impotentes, na sua moderação, de combaterem. Uma perspectiva do modus operandi dos fundamentalistas muitas vezes desconhecida ou propositadamente ignorada no Ocidente.
Um outro na mesma linha de acção ocorrido hoje teve lugar em Lahore, no Paquistão, matando 50 pessoas, como nos relata a Foreign Policy.
De lamentar é falta de interesse da opinião pública Europeia em relação a problemas em estado embrionário. Quando há centenas de mortes (Iraque), manifestações gigantescas (Irão) ou golpes militares sangrentos (Bangladesh) isso é notícia. Choca e dá audiências. Não digo que o fundamentalismo nos Balcãs vá atingir as mesmas proporções que no Médio Oriente, mas é um fenómeno em franco crescimento e poucos lhe dão atenção. O problema está aqui, à porta da Europa e alguma coisa se deveria fazer. Quantos serão precisos morrer antes que isso aconteça?
D'Além Mariinski: muito mais que um palito!
Concerto de Ano Novo de 2007 no Teatro que é um dos legados mais emblemáticos de Catarina na cidade emblemática de Pedro, os dois Grandes. Aqui se vê o que um génio consegue fazer com um palito. Além de uma técnica impecável e além repreensão - algo a que já nos habituaram os Russos -, a Orquestra de São Petersburgo apresenta-nos uma interpretação que este genial Gergiev, munido de palito, lhe arranca com uma carga emocional avassaladora, não tão comum nos espectáculos eslavos. Muito além!
D'Além Bruxelas: as promessas estão feitas!
Discussão da estratégia da União Europeia para 2020 com incidência nas reformas do sistema financeiro. Durão Barroso mantém-se fiel a si mesmo: suave e nada assertivo. Fica uma ideia de leviandade no ar no que respeita à regulação do sistema bancário, uma vez que Barroso se recusa, como sempre, a dar força aos discursos que faz, na tentativa de agradar a Gregos e Troianos. Algo muito Português, diga-se de passagem, a de dar uma no cravo e outra na ferradura. Algo que não é necessariamente mau e que no passado nos salvou de apertos, enquanto país pequeno a navegar em águas internacionais turbulentas. Cf. Grande Cisma da Ocidente (séc. XIV-XV), a neutralidade de D.João V (séc.XVIII) ou de Salazar (séc.XX). O segredo da diplomacia à portuguesa é parecer ceder a todos, não assumindo posição de força e assim os levar onde queremos. Estaria isto muito bem não fosse a falta de ambição subjacente e os fracos resultados que esta atitude prenuncia. Com esta atitude pouco mais se consegue que um status quo, que em momentos do passado poderá ter constituído um grande ganho político, mas que na situação económica actual da UE é tudo o que não precisamos. Veremos se Barroso se revela neste seu segundo consulado e se consegue impor rumo às reformas que a União Monetária desesperadamente necessita.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
D'Além Nigéria: Selecção de Futebol banida!
D'Além trago aqui um insólito! O Presidente da Nigéria Goodluck Jonathan baniu a selecção nacional - os Super Eagles - de jogar em competições durante os próximos dois anos, após uma participação desastrosa no Mundial de Futebol da África do Sul. Deixo-vos com uma questão assaz pertinente do Sahara Reporters:
"The shocking part of the decision is that the person making this decision is the president. This is the same president who brought 140 people to Canada for a needless jamboree only a few days ago. A president who is presiding over an oil producing country that is wallowing in darkness. A president who does not have the courage to arrest and prosecute his friends and political godfathers who have been indicted for accepting bribes from Halliburton and Siemens. ... A president who is presiding over a country in which the National Assembly dominated by members of his party are basically looting the treasury through dubious constituency allowances. In light of his failures, will the president withdraw himself from office for two years as he has done to the Super Eagles? If there is a World Cup for good governance, would Goodluck Jonathan make the tenth eleven? Your guess is as good as mine."
Imagem: Carl De Souza/Afp/Getty Images, in CBC Sports
"The shocking part of the decision is that the person making this decision is the president. This is the same president who brought 140 people to Canada for a needless jamboree only a few days ago. A president who is presiding over an oil producing country that is wallowing in darkness. A president who does not have the courage to arrest and prosecute his friends and political godfathers who have been indicted for accepting bribes from Halliburton and Siemens. ... A president who is presiding over a country in which the National Assembly dominated by members of his party are basically looting the treasury through dubious constituency allowances. In light of his failures, will the president withdraw himself from office for two years as he has done to the Super Eagles? If there is a World Cup for good governance, would Goodluck Jonathan make the tenth eleven? Your guess is as good as mine."
Imagem: Carl De Souza/Afp/Getty Images, in CBC Sports
Quer-se um bom artigo e não há...
Estando em época de exames por estes dias, o tempo para acompanhar devidamente a actualidade não tem sido de sobeja. Ora hoje de manhã pensei que era bom dia para tentar perceber como é que da situação grega a coisa tinha escalado para zunzuns de que vinha aí o fim do Euro. Ora isto quem quer aprender alguma coisa nestes dias bem que tem de pedalar. Não procurava um artigo de fundo, apenas alguns highlights, por isso esquadrinhei a imprensa nacional on-line.
Bem que me esforcei para nada! Há futebol, há Verão e a politiquice mesquinha do costume; pouco mais. Encontra-se alguns comentários pela blogosfera (como este n'O Cachimbo), mas nada que me satisfizesse. Lá capitulei e abri a página daquela publicação que ainda não me falhou nestes assuntos: The Economist. Aos interessados aqui fica a nota de um conjunto de artigos de opinião interessantíssimos quanto ao futuro da moeda única. Destacava as regras propostas pelo Hans-Werner Sinn, particularmente a ideia de ligar os limites do deficit do Pacto de Estabilidade aos pontos de endividamento sobre GDP.
Obviamente que não podia esperar este nível de insight (desculpem mas só me sai o inglês hoje) da imprensa generalista. Não deixa de ser aberrante, todavia, que os verdadeiros problemas com que o país está confrontado de momento não encontrem eco no meio jornalístico. E façam-me um favor, deixem lá a histeria da saga PT/Telefónica/Vivo que já não há pachorra. Mas ainda espanta alguém que um alienado com problemas de identidade e tendências megalómanas continue a tomar decisões néscias apenas para salvar a face? (É ateu, é ateu, mas ainda acredita em milagres). Deixem lá meus caros, a coisa resolve-se na mesma. Dêem uns dias aos Tribunais Europeus e lá se vai o brilho da golden share. Eu percebo a perplexidade, a revolta e indignação que por aí vai à conta do assunto. Como alguém muito bem notou n'O Cachimbo noutros tempos já o Governo já tinha caído do poleiro. Ele hoje também cai, mas procrastina-se em olvido a chafurdar na lama. Eu, por mim, vou tentando não ir muito para o meio do lodaçal que me agonia o cheiro.
Imagem: cortesia de iStockphoto
Bem que me esforcei para nada! Há futebol, há Verão e a politiquice mesquinha do costume; pouco mais. Encontra-se alguns comentários pela blogosfera (como este n'O Cachimbo), mas nada que me satisfizesse. Lá capitulei e abri a página daquela publicação que ainda não me falhou nestes assuntos: The Economist. Aos interessados aqui fica a nota de um conjunto de artigos de opinião interessantíssimos quanto ao futuro da moeda única. Destacava as regras propostas pelo Hans-Werner Sinn, particularmente a ideia de ligar os limites do deficit do Pacto de Estabilidade aos pontos de endividamento sobre GDP.
Obviamente que não podia esperar este nível de insight (desculpem mas só me sai o inglês hoje) da imprensa generalista. Não deixa de ser aberrante, todavia, que os verdadeiros problemas com que o país está confrontado de momento não encontrem eco no meio jornalístico. E façam-me um favor, deixem lá a histeria da saga PT/Telefónica/Vivo que já não há pachorra. Mas ainda espanta alguém que um alienado com problemas de identidade e tendências megalómanas continue a tomar decisões néscias apenas para salvar a face? (É ateu, é ateu, mas ainda acredita em milagres). Deixem lá meus caros, a coisa resolve-se na mesma. Dêem uns dias aos Tribunais Europeus e lá se vai o brilho da golden share. Eu percebo a perplexidade, a revolta e indignação que por aí vai à conta do assunto. Como alguém muito bem notou n'O Cachimbo noutros tempos já o Governo já tinha caído do poleiro. Ele hoje também cai, mas procrastina-se em olvido a chafurdar na lama. Eu, por mim, vou tentando não ir muito para o meio do lodaçal que me agonia o cheiro.
Imagem: cortesia de iStockphoto
Aprendendo com os antigos I
Acredito piamente que a falta de atenção às lições de História é responsável por uma grande falta de perspectiva da qual padecem largos milhares de Portugueses. Se quando sentados no banco da escola desenhassem menos corações entre suspiros e mandassem menos SMSs - sim, eu percebo que era mesmo urgente -, teriam, porventura, tido oportunidade de aprender uma grande lição: que isto de políticos é uma raça que por cá se queda há uns já valentes milhares de anos e que pelas medidas dos que já se finaram se tira a pinta aos de hoje e aos que mais tivermos de vir a sofrer. (Pensando bem, dada a cada vez maior decadência do ensino após o consulado da outra senhora, acho que nem que os alunos quisessem...) Back on track, já os ouço clamar: "Ah, mas então e o progresso da raça humana?" Certo é que já ninguém rasga as vestes como os Romanos, mas politicamente falando, o progresso resume-se à notavelmente célere aprendizagem de como capitalizar as novas tecnologias e desenvolvimentos em proveito próprio; digo: em proveito dos mais altos interesses do Estado. (Estou a esforçar-me por me actualizar com as novas referências semânticas...)
Um caso curioso que ilustra esta ingenuidade lusa passou-se precisamente com esses Romanos - que bem dizia o pequeno gaulês, e com alguma razão, que eram loucos. Deu-se isto lá por volta dos últimos cinco séculos antes do nascimento de Cristo na cidade de Roma. Na época era Roma uma República governada por um punhado de aristocratas e queixava-se a plebe (não lhe faltando a razão) que expulsara o último Rei para nada, visto que do poder prometido nem o cheiro. Ora o descontentamento deu em divórcio unilateral (e acha o governo que é progressista) quando o Senado elegeu para cônsul um senhor de elevada estirpe e igualmente elevado nariz: Appius Claudius Inregillensis. O que é o fizeram esses sábios romanos confrontados com as atitudes desse tiranozito empertigado? Mataram-no? Protestaram nas ruas? Deitaram fogo à cidade? Nada disso! Fizeram o que ficou conhecido para a história como: secessio plebis. Ou seja, toda a plebe (a esmagadora maioria da cidade claro está) abandonou Roma e acampou num monte ali perto, deixando os aristocratas para se governarem a eles mesmos. De génio! Claro está que conseguiram o que queriam e esse ano de 494a.C. viu a criação da magistratura do Tribuno da Plebe, cuja eleição dependia não do Senado mas do Populusque Romanus.É que isto de querer comer e não haver quem produza, transporte, venda e confeccione o repasto é coisa que deve ter alterado os mais altos interesses do Estado. E nem quero imaginar a desdita dos pobres senadores, que tiveram que ouvir as Julias, as Claudias, as Fabias e as Valerias em ataques apopléticos quando perceberam que as lojas estavam todas fechadas!
Ora como em equipa que joga bem não se mexe (algo que o Sr. Queiroz devia ter percebido antes de substituir o Hugo Almeida no funesto jogo de Terça), a plebe voltou a utilizar a mesma receita um punhado de vezes mais nas centúrias seguintes. Quando a necessidade assim o obrigava, lá se empacotava tudo muito bem e se ia passar uns dias de descanso ao campo à espera que os senhores de toga capitulassem da sua arrogância. Famosos ficaram os gerados pela recusa do Senado das Leges Duodecim Tabularum (449 a.C.) da Lex Canuleia (445 a.C.) ou da Lex Hortensia (287 a.C.). Ora com o tempo a plebe foi ganhando poder em Roma, sendo-lhe ultimamente abertas todas as magistraturas, pontificados e o assento no Senado. E já os ouço: "Ahah! Então não foi ingenuidade nenhuma! Deu resultado. Vamos todos organizar uma deslocação de Lisboa para o Monte da Caparica e ficamos lá à espera que pelas janelas dos gabinetes do Terreiro do Paço entrem ares de bom-senso e o governo tenha uma epifania!"
A questão é que nada mudou realmente. A plebe ficou possibilitada de concorrer nas eleições aos cargos públicos, de facto. Mas quem tinha os milhares de sestércios necessários para subornos e organização de jogos para conseguir assegurar uma eleição? Os ricos! Plebeus, mas ricos. Famílias que depressa se apressaram a integrar na aristocracia de linhagem, tanto por casamento como por compadrio político. E apesar do seu estatuto de plebeus, não se compadeceram mais das dificuldades da plebe-pé-descalça do que os seus colegas patrícios. A plebe viveu assim cinco séculos de ilusão de uma luta pela igualdade social. Para o final da República o nível de demagogia e aproveitamento desse conflito desencadeou décadas de guerras civis, até que surgiu vencedor Gaius Iulius Caeser Octavianus Augustus que acabou com a brincadeira republicana e deu a volta à coisa com um "L'Etat c'est moi!" muito mais subtil que o de Luís XIV. Foi de facto uma evolução do paradigma social algo comparável ao que aconteceu no século XIX como o novo-riquismo proporcionado pela revolução industrial. O príncipe italiano Di Lampedusa expôs a lógica subjacente de maneira brilhante na sua obra-prima O Leopardo (Il Gattopardo): "Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi!" (Se queremos que tudo fique na mesma é necessário que tudo mude!).
O que aprendemos hoje com os antigos? Iludam-se quanto quiserem com as falsas idolatrias e com as ideologias partidárias vãs e balofas que marcam o nosso espectro político da extrema esquerda à extrema direita. Por mais que tudo mude (entre todas as possíveis combinações de governo possíveis), tudo ficará sempre na mesma porque a ninguém interessa realmente que o paradigma do nacional porreirismo seja perturbado. Relembro que na votação na AR para o aumento dos valores não-justificados de financiamento das campanhas eleitorais apenas dois ou três deputados votaram contra. Em bom português: a m*da muda mas o cheiro é o mesmo. Os patrícios romanos sempre tinham algum sentido de estado e dever público; a nobreza medieval sempre era galante e honrada; a aristocracia da época moderna tinha o seu brilho, distinção e elegância; a burguesia saída da Revolução Industrial sempre começou por ser séria e comprometida. Agora isto!, esta degenerescência, este abastardamento que temos por classe dirigente? Isto é simplesmente, parafraseando Eça: "uma choldra ignóbil!".
Um caso curioso que ilustra esta ingenuidade lusa passou-se precisamente com esses Romanos - que bem dizia o pequeno gaulês, e com alguma razão, que eram loucos. Deu-se isto lá por volta dos últimos cinco séculos antes do nascimento de Cristo na cidade de Roma. Na época era Roma uma República governada por um punhado de aristocratas e queixava-se a plebe (não lhe faltando a razão) que expulsara o último Rei para nada, visto que do poder prometido nem o cheiro. Ora o descontentamento deu em divórcio unilateral (e acha o governo que é progressista) quando o Senado elegeu para cônsul um senhor de elevada estirpe e igualmente elevado nariz: Appius Claudius Inregillensis. O que é o fizeram esses sábios romanos confrontados com as atitudes desse tiranozito empertigado? Mataram-no? Protestaram nas ruas? Deitaram fogo à cidade? Nada disso! Fizeram o que ficou conhecido para a história como: secessio plebis. Ou seja, toda a plebe (a esmagadora maioria da cidade claro está) abandonou Roma e acampou num monte ali perto, deixando os aristocratas para se governarem a eles mesmos. De génio! Claro está que conseguiram o que queriam e esse ano de 494a.C. viu a criação da magistratura do Tribuno da Plebe, cuja eleição dependia não do Senado mas do Populusque Romanus.É que isto de querer comer e não haver quem produza, transporte, venda e confeccione o repasto é coisa que deve ter alterado os mais altos interesses do Estado. E nem quero imaginar a desdita dos pobres senadores, que tiveram que ouvir as Julias, as Claudias, as Fabias e as Valerias em ataques apopléticos quando perceberam que as lojas estavam todas fechadas!
Ora como em equipa que joga bem não se mexe (algo que o Sr. Queiroz devia ter percebido antes de substituir o Hugo Almeida no funesto jogo de Terça), a plebe voltou a utilizar a mesma receita um punhado de vezes mais nas centúrias seguintes. Quando a necessidade assim o obrigava, lá se empacotava tudo muito bem e se ia passar uns dias de descanso ao campo à espera que os senhores de toga capitulassem da sua arrogância. Famosos ficaram os gerados pela recusa do Senado das Leges Duodecim Tabularum (449 a.C.) da Lex Canuleia (445 a.C.) ou da Lex Hortensia (287 a.C.). Ora com o tempo a plebe foi ganhando poder em Roma, sendo-lhe ultimamente abertas todas as magistraturas, pontificados e o assento no Senado. E já os ouço: "Ahah! Então não foi ingenuidade nenhuma! Deu resultado. Vamos todos organizar uma deslocação de Lisboa para o Monte da Caparica e ficamos lá à espera que pelas janelas dos gabinetes do Terreiro do Paço entrem ares de bom-senso e o governo tenha uma epifania!"
A questão é que nada mudou realmente. A plebe ficou possibilitada de concorrer nas eleições aos cargos públicos, de facto. Mas quem tinha os milhares de sestércios necessários para subornos e organização de jogos para conseguir assegurar uma eleição? Os ricos! Plebeus, mas ricos. Famílias que depressa se apressaram a integrar na aristocracia de linhagem, tanto por casamento como por compadrio político. E apesar do seu estatuto de plebeus, não se compadeceram mais das dificuldades da plebe-pé-descalça do que os seus colegas patrícios. A plebe viveu assim cinco séculos de ilusão de uma luta pela igualdade social. Para o final da República o nível de demagogia e aproveitamento desse conflito desencadeou décadas de guerras civis, até que surgiu vencedor Gaius Iulius Caeser Octavianus Augustus que acabou com a brincadeira republicana e deu a volta à coisa com um "L'Etat c'est moi!" muito mais subtil que o de Luís XIV. Foi de facto uma evolução do paradigma social algo comparável ao que aconteceu no século XIX como o novo-riquismo proporcionado pela revolução industrial. O príncipe italiano Di Lampedusa expôs a lógica subjacente de maneira brilhante na sua obra-prima O Leopardo (Il Gattopardo): "Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi!" (Se queremos que tudo fique na mesma é necessário que tudo mude!).
O que aprendemos hoje com os antigos? Iludam-se quanto quiserem com as falsas idolatrias e com as ideologias partidárias vãs e balofas que marcam o nosso espectro político da extrema esquerda à extrema direita. Por mais que tudo mude (entre todas as possíveis combinações de governo possíveis), tudo ficará sempre na mesma porque a ninguém interessa realmente que o paradigma do nacional porreirismo seja perturbado. Relembro que na votação na AR para o aumento dos valores não-justificados de financiamento das campanhas eleitorais apenas dois ou três deputados votaram contra. Em bom português: a m*da muda mas o cheiro é o mesmo. Os patrícios romanos sempre tinham algum sentido de estado e dever público; a nobreza medieval sempre era galante e honrada; a aristocracia da época moderna tinha o seu brilho, distinção e elegância; a burguesia saída da Revolução Industrial sempre começou por ser séria e comprometida. Agora isto!, esta degenerescência, este abastardamento que temos por classe dirigente? Isto é simplesmente, parafraseando Eça: "uma choldra ignóbil!".
Imagem: The Secession of the People to the Mons Sacer, engraved by B.Barloccini, 1849 (engraving)- cortesia de Fotobank
quarta-feira, 30 de junho de 2010
[sic]"On n'est qu'on-même hypocrites!"
Obrigado ao Marco Dias Rodrigues (Aprender, criticando) por me ter chamado a atenção para este vídeo! Um discurso brilhante por Cohn-Bendit e possivelmente uma das poucas vozes independentes que ainda clamam por justiça nas instituições políticas de hoje em dia. Uma análise extremamente interessante e que trás à luz da opinião pública uma perspectiva muito bem apanhada das relações económicas Europa-Grécia e a relação com o conflito cipriota. Vale a pena perder 5min a ouvir.
Finalmente um uso decente para as vuvuzelas!
Vejam os últimos minutos em que estes dois malucos fazem uma performance incrível do Bolero de Ravel. São sem dúvida alguma génios, que tornam estes instrumentos abjectos em algo quase tolerável... Será que conseguiam fazer o mesmo com algumas pessoas? Conhecia alguns sérios candidatos a este tratamento...
terça-feira, 29 de junho de 2010
Ele há coisas...
Há coisas que são no mínimo caricatas. Daquelas que contadas ninguém acredita. É que aposto que não é preciso ser génio nenhum para se dar a volta à situação de uma forma coerente. E, uma vez mais, tenham bom-senso gente! Dá vontade de dizer: isto só neste país. Leiam a petição aqui incluída e já agora assinem que a causa é meritória...
http://www.peticao.com.pt/encerramento-bnp
Petição Contra o Encerramento da BNP
No passado dia 8 de Junho de 2010 a direcção da Biblioteca Nacional de Portugal [BNP] anunciou que os serviços de Leitura Geral da Biblioteca encerrarão durante dez meses (de 15-11-2010 a 01-09-2011) e os Reservados durante cinco meses (01-04-2011 a 01-09-2011). Como cidadãos e utilizadores da BNP, embora conscientes das inequívocas vantagens inerentes à ampliação do edifício de depósitos da biblioteca, consideramos o planeamento dos trabalhos estipulado inaceitável e solicitamos que seja repensado.
O encerramento durante quase um ano de uma instituição que detém colecções sem alternativas (Secção de Reservados, espólios do Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, Secção de Periódicos por exemplo) é incompatível com o prosseguimento da actividade científica de largas dezenas de estudantes e investigadores que necessitam desse material.
A indisponibilização dos acervos da BNP comprometerá a viabilização de projectos em curso, muitos deles com financiamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior ou de outras instituições, e porá em causa o cumprimento de calendários e compromissos académicos estabelecidos. O encerramento de uma instituição como a Biblioteca Nacional teria, no mínimo, que ser publicamente comunicado com um ano de antecedência para que as várias partes envolvidas (universidades, instituições de financiamento, estudantes, investigadores) pudessem planear o seu trabalho em função desses dados. É inadmissível que uma determinação deste género seja comunicada apenas com cinco meses de antecedência.
Por outro lado, acreditamos que seja possível levar a cabo os trabalhos de transferência dos fundos de forma faseada, de modo a evitar um encerramento integral tão longo. Independentemente de existirem outras bibliotecas com Depósito Legal, é do conhecimento geral que para uma parte substancial do acervo bibliográfico e documental da BNP não existem alternativas nem em Lisboa nem em nenhuma outra biblioteca ou arquivo do país. Pelo que é absolutamente incompreensível que se proponha que este acervo único permaneça inacessível durante 10 meses.
Solicitamos pois que se proceda a uma reconsideração do plano de transferência, no sentido de:
1) se atrasar o encerramento da BNP para depois de Junho de 2011, para dar um mínimo de um ano de antecedência ao anúncio
2) fasear os trabalhos de modo a reduzir o tempo de encerramento integral dos referidos núcleos da BNP.
Lisboa, 22 de Junho de 2010
http://www.peticao.com.pt/encerramento-bnp
Petição Contra o Encerramento da BNP
No passado dia 8 de Junho de 2010 a direcção da Biblioteca Nacional de Portugal [BNP] anunciou que os serviços de Leitura Geral da Biblioteca encerrarão durante dez meses (de 15-11-2010 a 01-09-2011) e os Reservados durante cinco meses (01-04-2011 a 01-09-2011). Como cidadãos e utilizadores da BNP, embora conscientes das inequívocas vantagens inerentes à ampliação do edifício de depósitos da biblioteca, consideramos o planeamento dos trabalhos estipulado inaceitável e solicitamos que seja repensado.
O encerramento durante quase um ano de uma instituição que detém colecções sem alternativas (Secção de Reservados, espólios do Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, Secção de Periódicos por exemplo) é incompatível com o prosseguimento da actividade científica de largas dezenas de estudantes e investigadores que necessitam desse material.
A indisponibilização dos acervos da BNP comprometerá a viabilização de projectos em curso, muitos deles com financiamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior ou de outras instituições, e porá em causa o cumprimento de calendários e compromissos académicos estabelecidos. O encerramento de uma instituição como a Biblioteca Nacional teria, no mínimo, que ser publicamente comunicado com um ano de antecedência para que as várias partes envolvidas (universidades, instituições de financiamento, estudantes, investigadores) pudessem planear o seu trabalho em função desses dados. É inadmissível que uma determinação deste género seja comunicada apenas com cinco meses de antecedência.
Por outro lado, acreditamos que seja possível levar a cabo os trabalhos de transferência dos fundos de forma faseada, de modo a evitar um encerramento integral tão longo. Independentemente de existirem outras bibliotecas com Depósito Legal, é do conhecimento geral que para uma parte substancial do acervo bibliográfico e documental da BNP não existem alternativas nem em Lisboa nem em nenhuma outra biblioteca ou arquivo do país. Pelo que é absolutamente incompreensível que se proponha que este acervo único permaneça inacessível durante 10 meses.
Solicitamos pois que se proceda a uma reconsideração do plano de transferência, no sentido de:
1) se atrasar o encerramento da BNP para depois de Junho de 2011, para dar um mínimo de um ano de antecedência ao anúncio
2) fasear os trabalhos de modo a reduzir o tempo de encerramento integral dos referidos núcleos da BNP.
Lisboa, 22 de Junho de 2010
Chegou de Expresso porque ainda não há TGV
Chegou ao Expresso (que pessoalmente considero a publicação mais fidedigna da imprensa nacional) o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Numa reviravolta desconcertante, se não inesperada, o semanário converte-se à nova seita linguística endereçada pelos senhores de S.Bento. Não entendo a leveza de espírito com que o jornal publicou a sua decisão, nem como aceita tão cordialmente denominar os espectadores de um qualquer evento com um vocábulo que mais se aplicaria a um bandarilheiro de tourada: espetadores.
Embora entenda a necessidade de evolução de uma língua e a situação dos hífenes e outros detalhes que tais não me façam a menor confusão, não consigo ficar indiferente ao assassínio de palavras como acção, recepção, vector ou baptismo. É que talvez quem de competência se não tenha apercebido, mas embora os cês e pês destas palavras sejam mudos, não são inúteis. Servem para que, quando lemos estas palavras, abramos vogais que de outra forma se deveriam ler fechadas. Assim, lemos "áção" "recéção", "vétor" e "bátismo". Sem as consoantes mudas, passamos a fechar todas essas vogais. Boa sorte para quem quiser falar assim, eu não consigo nem quero.
Embora me escude no facto de a minha rejeição do Acordo Ortográfico se fundamentar em razões linguísticas (fonéticas, etimológicas...), interrogo-me se não serei simplesmente um conservador. Mas não tenho nada contra neologismos ou novas relações semânticas ou novas construções sintácticas, mas isto de mexerem na ortografia desta maneira irresponsável não me cai bem. Esta má disposição, à falta de alternativa que se me afigure, imputo-a ao bom senso.
Claro está que não se poderia esperar que os frequentadores dos Paços de S.Bento padecessem desta minha má-disposição. A lógica, o nexo e a coerência nunca figuraram na lista das suas preocupações; seria ingénuo esperá-lo agora. Esfaqueiam esse pobre coitado do bom-senso sempre que têm oportunidade, qual bandarilheiros, verdadeiros espetadores (sem "c"). Das últimas facadas a mais profunda deve ser aquela da construção de um comboio de alta velocidade entre duas capitais que não parte de uma nem chega à outra. Mas jubilemos, que isso tornou a nossa ligação de alta velocidade à Europa (como se não fossemos já parte desse continente) um passo mais próxima.
E nesses tempos áureos de prosperidade que nos trará o TGV, estas ideias peregrinas como a do Acordo já não precisarão de nos chegar de Expresso, que isso será coisa do passado.
Dissonâncias d'Aquém e d'Além
Afigurou-se-me ser hoje dia tão bom como outro qualquer para reciclar este velho amigo. O Dissonâncias (I) foi companheiro fugaz de um período marcante da minha existência, os 17 anos. Limpei-lhe o pó, pus óleo nas dobradiças, lavei-lhe a fronte e vesti-o de novas roupagens. Tracei a tinta electrónica um novo nome que sendo talvez mais pomposo (o que não é necessariamente mau), me é também mais querido. D'Aquém o meu pathos, d'Além o dos outros. D'Este e d'Aquele Reinos vos contarei histórias do que lhes sucedeu a partir do dia de 29 de Junho de 2010.
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